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O MUNDO INTERIOR
de RÛMÎ ISBN: 978-989-8147-05-9
Idioma: Português
1ª edição (2010)
Formato: 14,5x21
N. Pág.: 423
Encadernação: Cartonada Disponibilidade: em stock Preço: 25,00 €
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Sinopse: Jalâl Rûmî, um dos maiores mestre Sufis de sempre, nasceu na Pérsia em 1207 e fundou a Ordem Mevlana dos Derviches em Konya. O seu profundo ensinamento, irradiando cada vez mais em todo o mundo, chega-nos agora a Portugal. São suas as famosas frases: "Vem, vem, a nossa fraternidade é um lugar de amor". "Os crentes são como uma só alma. Os derviches são como um só corpo". ************ Jalâl Udin Rûmî foi um dos grandes Mestres Sufis conhecidos que, neste texto magnífico que continua actualmente a ser meditado e comentado em todo o mundo islâmico, nos ensina a procurar o conhecimento de nós próprios e a seguir um caminho que nos conduza à realização daquilo a que fomos destinados. A bitola é o Amor. Diz-nos Rûmî: “O género humano sente uma insatisfação, um desejo, e luta por realizá-lo através de toda a espécie de empreendimentos e ambições. Mas esta realização só pode ser encontrada no Amor, embora este deva ser usado com cautela pois o fogo que aquece também queima.” Em O Mundo Interior, Rûmî ensina-nos como nos libertarmos das amarras da ignorância de modo a podermos finalmente mergulhar na essência imutável do Ser. O caminho espiritual realiza-se no mundo através da disciplina e do estudo, experimentando a cada momento a realidade da vida e sendo esse o principal modo de aprendizagem. Numa linguagem simples, de forma a permitir que todos, à sua própria medida, possam aceder ao Conhecimento, d’ O Mundo Interior ecoa a essência profunda do Ser e a harmonia e beleza da mensagem subjacente a cada palavra eleva-nos até onde apenas o coração pode chegar. |
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Excertos: O Mestre disse: «Tinha um grande desejo de vos ver, mas como sabia que estáveis ocupado ao serviço das pessoas, não queria incomodar-vos». Ele* disse: «Era a mim que incumbia esta obrigação. Agora, a inquietação dissipou-se, e doravante sou eu quem vos visitará». O Mestre disse: «Não há nenhuma diferença, é a mesma coisa, e tendes tanta graça que para vós tudo parece semelhante. Que é feito de todos os trabalhos de que vos encarregais? Como sabemos que agora sois vós que vos ocupais de obras piedosas e de beneficência, dirigimo-nos a vós. Neste momento, estávamos a discutir: se um homem tem família e um outro não a tem, deve-se subtrair a este e dar àquele?** Aqueles que se contentam com o senso óbvio (zâber) em religião pretendem que se deve tirar a este que possui uma farnília para dar àquele que não a tem. Na realidade, o pobre é auele que possui uma família. Assim é também com o místico que tem nobreza de alma.*** Se bate em alguém e lhe quebra a -------------------------------------------------------------------------------------------- * - O emir disse ** - Visto que o homem que tem uma família tem uma subsistência suficiente e que o homem que não tem família está na necessidade e na miséria. *** - E um foro interior luminoso, se, em vista de um beneticio secreto, ele bate a uma uma pessoa que está no erro com a intenção de o educar, e se lhe quebra ----------------------------------------- cabeça, o nariz e a boca, toda a gente dirá que é esta pessoa que é a oprimida. Na realidade, o oprimido é aquele que bate; o tirano é aquele que não distingue o que é bom para si. É tirano aquele que é vencido e cuja cabeça está partida; o oprimido é o outro, aquele que possui a nobreza de alma e está aniquilado em Deus: o que ele faz é Deus quem o faz; ora, Deus não é um tirano. ..................... |
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Especiais: INTRODUÇÃO A tradução que aqui apresentamos da principal obra em prosa de Djalâl-ud-Dîn-Rûmî, fundador da Ordem dos Derviches rodopiantes, é a primeira a surgir em francês. Existem diversos manuscritos desta obra. O mais antigo encontra-se em Istambul; contém 216 folhas, ou seja, 410 páginas. Fîhi-ma-fîhi termina na p. 193; o Kitâb al-Ma’arif do filho de Djalâl-ud-Dîn-Rûmi, Sultão Walad, vem no seu seguimento. O colofão (N. T.: inscrição no fim de manuscritos ou de livros impressos, com o local, impressor e data) tem a data de 1316. Foi escrito quarenta anos após a morte do Mestre e parece ter sido copiado de um manuscrito redigido por um escriba presente nas sessões em que eram anotadas as conversas. É o manuscrito asl, ou seja, o manuscrito de origem. O segundo manuscrito encontra-se igualmente na Biblioteca Fatîh, em Istambul. Contém 170 páginas, e está datado de 4 de Ramadão (Ramadhan) de 751 (1350), ou seja, setenta e nove anos após a morte da Djalâl-ud-Dîn. Alguns ghazals e quadras do Mestre são acrescentados no seguimento desta cópia, da qual não fazem parte os Ma’ârif. Tem o título, não de Fîhima-fîhi, mas o de Asrâr-ul-Djalâlîya, «Os segredos de Djalâlud-Dîn». Este manuscrito é igualmente muito importante por ter sido certamente copiado de um manuscrito feito em casa do Mestre de Konia. Trata-se do manuscrito Ha.8 JALÂL RÛMÎ Um terceiro manuscrito, que não parece tão autêntico como os outros dois, da biblioteca Sulemaya de Istambul, sem data, é do final do século VIII da Hégira (final do século XIV). O quarto manuscrito, escrito em meados do século XV, sem os Ma’ârif, encontra-se na Biblioteca Nacional de Teerão. O quinto manuscrito, escrito em 888 da Hégira, pertence ao professor Forûzânfar, a quem se deve a edição de Fîhi-ma-fîhi em Teerão, em 1952. Uma edição, com bastantes erros, apareceu nas Índias em 1928. Sobre a capa do primeiro dos manuscritos que mencionámos, aparece o título de Kitâb Fîhi-ma-fîhi (O livro de Fîhi-ma- -fîhi). A palavra «Kitâb» caiu em desuso e restou apenas Fîhi- -ma-fîhi. Este título não foi, com toda a certeza, dado a esta obra no tempo do Mestre, pois o segundo manuscrito chama-se Asrar-ul-Djalâlîya. Mas foi sob o título de Fîhi-ma-fîhi que passou à posteridade. Estas três palavras foram retiradas de uma quadra de Ibnul-’Arabî, o grande poeta místico que morreu em Damasco em 1240, e que Djalâl-ud-Dîn reencontrou, sem dúvida, nesta cidade. Este poema encontra-se nos Futûhât-al-Makkîya (ed. Bulak, 2º livro, p. 777): diz-se que aquele que compreende este significado possui a jóia da vida». Como traduzi-lo? Literalmente, Fîhi-ma-fîhi quer dizer: «Ali dentro está o que lá está» ou «Isso contém em si o que contém em si», «Contém o que contém», ou ainda «Tudo está ali».1 Podemos interrogar-nos sobre o sentido que convém dar a esta expressão. Sem dúvida, o que parece aproximar-se mais do pensamento de Djalâl-ud-Dîn Rûmi é tratar-se de um ensinamento _____________ 1 É assim que o traduz o Prof. H. Z. Ulken, em O Pensamento do Islão, Istambul, 1953, p. 308. _________________ espiritual à altura daquele que o recebe: este último encontra aí apenas o que é capaz de aí descobrir. Sublinhámos algures a necessidade de tal receptividade do discípulo a respeito dos conselhos do seu mestre.2 «As palavras», está dito em Fîhi-ma- -fîhi, «podem apenas despertar um eco em vós. Elas são apenas «a sombra da realidade... um pretexto».3 Elas adaptam-se à capacidade do ouvinte:4 «Nós esperamos», acrescenta, «que escutem estes ensinamentos com o vosso ouvido interior».5 Por outro lado – e isto não contradiz em nada o que acabamos de indicar – este título poderia dar a entender que neste ensinamento está oculto um segredo: não basta limitar-se à aparência, mas é preciso procurar o aspecto mais interior. No capítulo 26, após haver exposto algumas parábolas, Djalâl- -ud-Dîn Rûmi declara: «Guardai-vos de dizer que haveis compreendido!... A compreensão é não compreender... Esta compreensão é para ti um entrave. É preciso escapar (lhe)...».6 Para chegar ao sentido profundo – ma’nî – dissimulado «sob a bruma das palavras», a única disponibilidade, ou possibilidade de acolhimento, não basta: impõe-se um esforço, um passo, primeiro passo que já faz daquele que interroga – ou se interroga – um peregrino,7 sâlik, da Via. «Como poderá alguém chegar à pérola olhando simplesmente o mar? É necessário um mergulhador para encontrar a pérola».8 _________________ 2 Eva de Vitray-Meyerovitch: Mystique et Poésie en Islam, Djalâl-ud-Dîn Rûmi, Paris, Desclée de Brouwe, 1968, reed. 1972, p. 56, 75 sq. 3 Fîhi-ma-fîhi, trad. francesa (Le Livre du Dedans), p. 31 e 86. 4 Ibid., p. 152 5 Ibid., p. 88 6 Ibid., p. 151 7 Mathnawî, VI, 84 seg. 8 Mathnawî, VI, 84 seg. _____________________ A utilidade da palavra será: «ela incita-te na procura; não que a coisa procurada seja obtida pela palavra, pois se assim fosse não terias necessidade de te esforçar tanto... A palavra é como uma coisa que vês agitar-se de longe: corres atrás dela para a ver, mas não é por causa do seu movimento que a vês. A palavra do homem, sob o seu aspecto oculto, é parecida com isto: ela incita-te a procurar o seu significado, embora na realidade não o vejas».9 A maior parte das almas está adormecida: o papel do mestre consistirá essencialmente num aviso.10 Toda a obra de Djalâl-uddîn-Rûmi se inclinará para esta finalidade: «Eu», diz ele, «estudei as ciências e esforcei-me para que os sábios e os buscadores e as pessoas inteligentes e aqueles que pensam profundamente venham e eu lhes exponha coisas preciosas, estranhas e subtis. Deus, o Altíssimo, assim o quis».11 O grande poeta místico que é o fundador da Tarîqa mawlawîya nunca se permitiu praticar a arte apenas pela arte:12 quis ser, acima de tudo, mestre espiritual, e é sob este aspecto que o vemos aparecer em Fîhi-ma-fîhi.13 _________________________________ 9 Fîhi-ma-fîhi, trad. Fr., p. 246. 10 Cf. Aflâkî, Manâqib-ul-’Arifîn, trad. C. Huart. T. I, p. 258: «se nos deixássemos adormecer, de que serviria isso a todos estes infortunados adormecidos? Tomei-os todos a meu cargo, para os encomendar a Deus e fazê-los chegar à perfeição, livrálos da sucessão de castigos e fazê-los atingir os degraus ascendentes do Paraíso, se for do agrado do Deus único». 11 Fîhi-ma-fîhi, trad. fr., p. 107. 12 Ibid. 13 O Professor R. A. Nicholson, num artigo do J.R.A.S. (Cent. Sup., 1924, p. 1 – 8) designa esta obra como «Table talks» de Rûmi, em alusão aos «Propos de Table» de Luthero. O Prof. Arberry, na tradução inglesa citada (Introd. p. 16), assinala que alguns comentadores, que indica mas não nomeia, consideram que Fîhi-ma-fîhi significaria «pode-se encontrar neste livro o que está contido naquele livro», a saber o Mathnawî outra obra de Rûmi de que falaremos mais adiante. Se é exacto existirem sinais que nos remetem de uma obra para a outra e que é indispensável confrontar, isto não é suficiente, segundo nós, para justificar a escolha do título desta recolha. __________________________ Djalâl-ud-Dîn Rûmi nasceu em Balkh, no Khorassan, a 16 de Rabî’I 604 (30 de Setembro 120714). O seu pai, Bahâ ud- -Dîn Walad, tornou-se célebre como teólogo e pregador. Denominaram-no «Sultân ul-’ulamâ», sultão dos sábios. Era um mestre sufi com vasta audiência, e exerceu sobre Djalâl- -ud-Dîn – ao qual reconheceu a precoce santidade e a quem, por esta razão, chamava «Mawlânâ», nosso mestre –, uma profunda influência. A família teve que fugir por causa da invasão mongol e acabou, depois de múltiplas peripécias, por se instalar na Anatolia, em Konya. Alâ’ud-Dîn Kayqobâd, soberano seljúcida, amigo das ciências e das artes, convidou aí Bahâ’ud- -Dîn Walad, que assumiu a direcção de uma escola (madrassa) onde ministrou ensinamentos até à data da sua morte, sobrevinda em 628 Hég. Djalâl-ud-Dîn torna-se então discípulo de um antigo aluno de seu pai, Burhân-ud-Dîn Muhaqqiq Tirmidhî15 e, sob os conselhos deste deslocou-se a Alepo, onde estudou na escola de Halâwiya, que contava com eminentes sábios hanáfitas. Em Damasco, conheceu Muhyî-ud-Dîn Ibn-ul-’Arabî, depois regressou a Konya onde sucedeu a seu pai como professor de Fiqh e de Shari’a. Em 1244, a existência do jovem teólogo foi irremediavelmente transformada pelo encontro com Shams de Tabrîz. Foi esse o acontecimento capital da sua vida, de que ele próprio dizia: «Consiste nestas três palavras: estava cru, fui cozido, estou queimado.» Sultân-Walad, seu filho primogénito, seu confidente e seu sucessor, escreve a propósito: «Deus consentiu que Shams se manifestasse particularmente a ele, e que isto fosse para ele apenas... Ninguém teria sido digno de uma __________________ 14 Esta data foi discutida, mas parece a mais segura. 15 Trata-se dele, particularmente nos cap. 4, 26, 56, de Fîhi-ma-fîhi. ______________________ tal visão. Após tão longa espera, Mawlânâ viu a face de Shams; os segredos tornaram-se para ele manifestos como o dia. Ele viu aquele que não se pode ver, escutou o que alguém jamais escutará de alguém... Enamorou-se dele e foi aniquilado».16 Durante três anos, Djalâl-ud-Dîn foi o discípulo apaixonado de Shams. Depois este desapareceu misteriosamente, sem dúvida assassinado pelos discípulos, ciumentos do ascendente que aquele exercia sobre o seu mestre.17 Djalâl-ud-Dîn ficou durante muito tempo inconsolável e dedicou à memória do amigo desaparecido um Dîwân de uma beleza lírica sem igual.18 Depois instituiu o Samâ’, oratório espiritual que acompanha a célebre dança rodopiante característica da sua confraria. Este «concerto», verdadeiro ofício litúrgico, comporta todo um simbolismo que estudámos noutro lugar em pormenor.19 Baseando-se na «correspondência» do microcosmo e do macrocosmo representa, por um lado, a roda celeste dos planetas em volta do sol e, por outro, a busca do Eu supremo pelas almas exiladas. O canto da flauta, o ney, que preludia as sessões de Samâ’, exprime a nostalgia deste exílio do ser longe da pátria espiritual que é a sua origem e o seu Fim.20 ______________________________ 16 Walad-Nâma, texto persa, ed. de Djalâl Homaî, Teerão, 1355 Hég., p. 42. – Estamos a preparar actualmente uma tradução francesa desta obra essencial para o conhecimento da vida e da obra de Rûmi. 17 O hagiógrafo dos Derviches rodopiantes, Aflâkî, conta nas suas Manâqib-ul-’Arifîn, t. I, p. 69 da trad. francesa citada, que Shams tinha suplicado a Deus que lhe desse a conhecer um dos seus santos e ofereceu-lhe, em troca, o sacrifício da sua vida. Rûmi faz alusão a isso no cap. 6 de Fîhi-ma-fîhi. 18 Trad. francesa por E. de Vitray-Meyerovitch com a colaboração de M. Mokri, Klincsieck editor, 1973. 19 Mystique et Poésie en Islam, Desclée de Brouwer editor, reedição 1972. 20 Mathnawî Im i seg. Uma tradução francesa do Mathnawî por E. de Vitray Meyerovitch deve aparecer nas Editions Sindbad. ________________________ Depois da morte de Shams, Rûmi escolheu sucessivamente, para confidente e para director espiritual dos seus discípulos, Salâh-ud-Dîn Farîdûn, depois Husâm-ud-Dîn Tchelebi. É instado por este último que compõe o seu célebre Mathnawî, poema de 25.000 versos aproximadamente, dividido em seis livros que, desde há séculos, é lido e objecto de meditação em todo o mundo islâmico. Já indicámos a frequência das semelhanças entre Fîhi-ma- -fîhi e o Mathnawî. Não só os mesmos versículos corânicos, os mesmos hadîth’s e os mesmos versos estão citados nas duas obras, mas também as mesmas estórias e os mesmos temas: o fluxo do pensamento, não é ele idêntico? Notemos, de passagem, a narração da conversão de Abbâs, tio do Profeta (cap. I de Fîhi-ma-fîhi, livro III do Mathnawî, 4473 seg.), a comparação do homem com o astrolábio de Deus (cap. II, Mathnawî VI, 3140 seg.), a história de Laylâ e Majnûn (cap. IV, VII, XVI, Mathnawî IV, 1533 seg., V, 3286 seg.), a lenda segundo a qual ‘Omar teria bebido sem qualquer consequência um copo cheio de veneno (cap. XXVI, Mathnawî V, 4238 seg.), a coluna que gemia (cap. XXXIV, Mathnawî I, 2113), a estória do rei que lia uma carta sem lhe responder (cap. XL, Mathnawî III, 1490 seg.), a do homem que roubava frutos num pomar (cap. XL, Mathnawî V, 3077 seg.), a história de José a quem oferecem um espelho (cap. L, Mathnawî I, 3158 seg.), etc. A obra lírica do mestre de Konya, além do Dîwân-e-Shams- -de-Tabrîz, comporta quadras, Rubâ’îyât. Quanto às suas obras em prosa, à parte uma interessante recolha de cartas dirigidas às principais personalidades da época (Maktûbât) e alguns opúsculos dos quais um, Madjâlis sab’a, é parecido, pelo seu estilo, com Fîhi-ma-fîhi, este último é incontestavelmente a principal. Foi editado pelo Professor Badî’uz-Zamân Forûzânfar, em Teerão, em 1952. Uma nova edição, posterior a esta, publicada (sem data) por Dâr-al-Tashîh v’at-Tardjamah, igualmente em Teerão, reproduz uma edição litografada anterior (Teerão, 1333, 330 p.). A primeira parte desta edição contém 272 páginas (das quais 18 de introdução). Apresenta, com a supracitada edição de Forûzânfar,um número bastante grande de variantes. Escolhemos de entre elas, na nossa tradução, o que nos pareceu a melhor leitura, indicando as variantes em fim de página. O texto desta edição, sendo por vezes mais explícito, permite-nos acrescentar à tradução efectuada sobre a edição de Farûzânfar algumas passagens,21 e por vezes até uma página inteira.22 A segunda parte desta edição compreende 123 páginas. Reconhecendo, no entanto que a redacção é da mão de Sultân-Walad, os autores desta edição consideram que se trata de um seguimento de Fîhi-ma-fîhi, que publicam portanto como segunda parte desta mesma obra. Ora, segundo o Professor H. Ritter,23 esta pretensa segunda parte é na realidade o Kitâb al-Ma’ârif de Sultân-Walad, que cita mais de vinte manuscritos, encontrados na biblioteca da Turquia. Uma observação do próprio Sultân-Walad confirma que convém ver aí uma obra separada, visto declarar, propósito da história de Moisés e de Khezr (de que fala longamente no Walad - Nâna) que foi tratada “no início deste livro” (P. 195 da nossa tradução). _____________________ 21 Os números entre parêntesis remetem para as notas (capítulo especial). Os asteriscos remetem para as variantes. As passagens entre aspas não existem na nova edição. 22 Por exemplo, a página 289. 23 H. Ritter, Philologika XI, «Mawlânâ Galâladdîn Rûmi und sein kreis», in Der Islam, 1942, p. 221 seg. _____________________________ Se é evidente que os Ma’ârif foram redigidos por Sultân- -Walad, é muito provável que os discursos de Djalâl-ud-Dîn Rûmi, reunidos sob o título Fîhi-ma-fîhi, tivessem sido recolhidos e anotados pelo seu filho, quer imediatamente, quer pouco tempo após terem sido proferidos. Os Ma’ârif dão a impressão de terem sido escritos mais tarde por Sultân-Walad, de constituírem no mais alto grau um trabalho de clarificação: o conjunto é menos espontâneo, mais elaborado, parece reflectir o cuidado de apresentar as coisas de modo menos denso, mais explícito. A forma é menos diversificada; poucos interlocutores intervêm, praticamente não existem questões nem discussões. Cada capítulo aparece como um todo, mais coerente, um pouco semelhante a um sermão. Se Sultân-Walad repensou os ensinamentos de seu pai e se debruçou mais sobre o que considerava especialmente importante, não podemos confirmar. Mas, não restam dúvidas de que se trata, aqui e ali, de um mesmo ensinamento, vindo de um mesmo mestre espiritual. Sultân-Walad indica, desde o início: «O meu pai dizia...» e, no capítulo 14: «Como Mawlânâ (que a minha alma lhe seja sacrificada!) disse...» Existe uma profunda unidade entre os dois textos, que se completam, cuja inspiração doutrinal é idêntica, onde se encontram por vezes os mesmos temas ou estórias, por vezes as mesmas citações, e cuja redacção não revela diferença de estilo. Em última análise, o verdadeiro «autor » é sempre Rûmi: é o seu pensamento que se exprime, é um «escriba» único que o anota. A nossa tradução francesa de Fîhi-ma-fîhi estava terminada quando foi publicada a tradução inglesa dos «Discourses of Rûmi» do professor Arberry; mas a preparação da nossa tese principal sobre os «Temas místicos na obra de Djalâl-ud-Dîn Rûmi» obrigou-nos a adiar a data de publicação.24 Fîhi-ma-fîhi constitui uma recolha de conversas de Mawlânâ com os seus discípulos, assim como com diferentes personagens, por vezes nomeadas. O seu interlocutor é frequentemente Mu’în-ud-dîn Pervâna, poderoso ministro de Rukn-ud-Dîn, a quem Rûmi, que Pervâna protegia, escreveu numerosas cartas. Estas conversas apresentam-se geralmente sob a forma de questões colocadas, às quais o mestre responde directamente; depois passa a temas diversos, segundo a inspiração do momento ou a ocasião fornecida pelas circunstâncias. Por diversas vezes, assinala que, quando trata de um tema particular, é para comentar um versículo corânico ou um hadîth profético que lhe vieram ao espírito, ou então para discutir uma opinião enunciada. Por vezes, todo o capítulo apresenta a forma de um ensaio reagrupando os pensamentos centrados num tema dado, a menos que se trate de uma verdadeira controvérsia entre dois ou vários personagens, em que o mestre é chamado a decidir. O carácter desordenado é próprio de uma obra deste género. Não vale a pena procurar uma verdadeira continuidade entre os temas abordados, e muito menos uma construção doutrinal. No entanto, é possível descortinar, sob a multiplicidade das alusões, das estórias, das citações, das digressões, um fio condutor. Esta unidade subjacente à multiplicidade parece-nos a característica essencial das obras de Djalâl-ud-Dîn Rûmi, quer se trate da _______________________ 24 P. 195 da nossa tradução. John Murray editor, Londres, 1961. Esta tradução é efectuada apenas sobre a edição de 1952 devida a M. Forûzânfar. Reeditada sob o título «Mystique et Poésie en Islam», nas edições Desclée de Brouwer. ____________________________ abundância de temas que se sobrepõem e se recortam ao longo da imensa teodiceia do Mathnawî, ou dos ghazals do Dîwân. Estes obedecem à lei do género, os dísticos (beit) independentes uns dos outros quanto ao sentido são unidos entre si, como as pérolas de um colar, por uma certa coloração psíquica, uma certa tonalidade espiritual, um mesmo hâl. Encontra-se aqui algo análogo. O estilo destas conversas é familiar e simples: é a língua falada, na época, nos meios eruditos. Não se encontram traços deste estilo trabalhado e ornado de figuras de retórica que já caracteriza frequentemente as obras desta época e, cuja preciosidade foi crescendo. Esta clareza verbal não exclui algumas dificuldades de tradução, devidas nomeadamente à ignorância em que nos encontramos acerca dos acontecimentos a que se faz alusão. Por exemplo, o capítulo 34 (em árabe) é bastante obscuro e não se sabe se se trata de um sonho ou de uma visão simbólica. Já sublinhámos a importância que Rûmi dava ao seu papel de guia espiritual.25 É em Fîhi-ma-fîhi que se clarifica esta intenção didáctica. As pequenas histórias que abundam nesta obra têm frequentemente a frescura das trovas da Idade Média; mas ele próprio dizia: «Os meus gracejos não são gracejos, são um ensinamento, são destinados a dirigir o povo e a fazê-lo compreender o meu pensamento».26 Acrescentava: «Se os místicos se servem de comparações e de imagens, é para que o homem _____________________ 25 Ele costumava dizer acerca do Mathnawi: «Eu não compuz o Mathnawi para que se ande com ele como um amuleto, ou para ser repetido, mas para que este livro seja posto debaixo dos pés e se voe com ele. O Mathnawi é a escada de ascensão para a verdade e não deves pôr esta escada à volta do teu pescoço e ires de aldeia em aldeia, pois de tal modo nunca poderás tocar a abóbada celeste; se agires assim, não terás sucesso na demanda do fim último do teu coração» (Cf. Mystique et Poésie en Islam, p. 51). 26 Aflâki, op. cit. T. I, p. 293. _____________________________ amante, mas de espírito fraco possa colher a verdade».27 Ele desejavaefectivamente prender a atenção de ouvintes de níveis diferentes. As fontes às quais se refere são em primeiro lugar o Qor’ân e os hadîth [tradição profética]; cita frequentemente o poeta Sanâ’î por quem nutria uma particular admiração e ao qual consagrou magníficas odes do seu Dîwân,28 por vezes reproduz também alguns dos seus próprios versos. Todo o ensinamento do mestre de Konya traz a marca da maior tolerância: «Se», escreve ele em Fîhi-ma-fîhi29 «os caminhos são diferentes, o fim é único. Não sabes que diversos caminhos levam à Ka’ba? Para alguns, o caminho da Ka’ba passa por Bizâncio, para outros pela Síria, e para outros pela Pérsia, e ainda para outros pela China... os caminhos diferem; o fim é único.» Ele cita várias vezes, sempre em Fìhi-ma-fîhi, este verso de Sanâ’î: «A impiedade e a fé correm as duas sobre o caminho de Deus.» E encontra-se, nesta mesma obra, menção aos conflitos que lhe atiçavam os Ulemás «grandes pensadores» que criticavam o Samâ’e o carácter democrático da tarîqa30 que ele havia fundado. Esta revestiu-se de uma grande importância para todo o império otomano e para o resto do mundo islâmico, tanto pelo número ______________________ 27 Mathnawi, VI, 117 sq. 28 Ghazals nºs 996 e 1007. 29 Trad. fr., p. 134-135. 30 Este termo, que significa «via, caminho», tem dois sentidos: um designa um método de direcção espiritual, um itinerarium mentis ad Deum; o outro, um conjunto de ritos preconizados por uma via religiosa comum; por fim, tornou-se sinónimo de confraria (Cf. E.I., art. Tarîqa). ____________________________ dos seus seguidores como pela sua fama. Teve takya («mosteiros») mawlawîs, não apenas no Oriente, mas até na Europa central. A ligação à tarîqa compreendia geralmente a residência – habitualmente temporária num destes takya. A tarîqa mawlamîya fundada por Djalâl ud-Dîn Rûmi foi organizada na sua forma definitiva pelo seu filho primogénito, Sultân-Walad. Do ponto de vista ritual, ela distingue-se principalmente pela sua dança giratória, o Samâ’. Os trajes dos derviches mawlaîs são muito característicos e um simbolismo prende-se às diferentes partes da sua indumentária: é assim que o gorro de feltro alto representa a pedra tumular, a veste branca a mortalha e o casaco preto que os envolve a tumba, de onde devem surgir para um novo nascimento. A música, a dança e a poesia da tarîqa exerceram uma grande influência no imenso império otomano para lá das suas fronteiras. Houve aqui, a partir do século XV, uma literatura mawlawi, bastante diferente da literatura clássica turca. Nos takya eram dados cursos de interpretação do Mathnawî, e as obras de Rûmi deram lugar a numerosos comentários, em árabe, em turco e em persa.31 Quando Djalâl-ud-Dîn Rûmi morreu, a 12 de Dezembro de 1273, todos os habitantes de Konya, sem distinção de crenças, seguiram o seu funeral, que ‘Aflâkî descreve assim: «O barulho dos timbaleiros, o som dos oboés e do clarim anunciavam a «boa nova». Os muezzins com voz agradável chamavam à oração da Ressurreição; vinte turbas de excelentes cantores recitavam os cantos fúnebres que o nosso Mestre tinha, ele próprio, composto: ____________________ 31 Cf. Mystique et Poésie en Islam, p. 38 seg. _____________________ O Rei do pensamento transparente dançando se foi embora para outro país, o país da Luz.32 É impossível, repitamo-lo, resumir ou condensar o ensinamento dispensado pelo mestre de Konya aquando das conversas anotadas em Fîhi-ma-fîhi. Apenas se pode destacar um certo número de temas, que se encontra sob uma forma tanto didáctica como lírica, no Mathnawî e, de maneira mais alusiva e mais velada, no Dîwân. Assinalamos a passagem da comunicação sem palavras entre mestre e discípulo (ham-damî). (Cap. 2, 6, 7, 10, 11, 31), a natureza do homem, astrolábio de Deus (cap. 2, 12), semelhante a um vaso flutuando sobre o oceano do Ser (cap. 41), a um espelho para o outro (cap. 6, 43), a busca mística (cap.11, 31, 44, 51), o amor (cap. 10, 16, 20, 33, 36, 51, 56, 57, 60, 61, 62, 63), a oração (cap. 3, 8, 28), a natureza do conhecimento (cap. 11), o problema do mal (cap. 30, 47), o do sofrimento (cap. 5), a escala universal do Ser (cap. 5). Embora seca e incompleta, pois deve limitar-se a assinalar os assuntos mais frequentemente tratados, sem levar em conta a multiplicidade dos temas considerados nem das digressões, esta enumeração deixa, no entanto, entrever a riqueza dos temas abordados. Djalâl-ud-Dîn Rûmi comprazia-se em recordar os versos de Sanâ’î: Há céus no reino da alma que governam os céus deste mundo. __________________ 32 Op. cit., t. II, p. 97 – 100. ______________________ Meditar sobre este dístico é ir, cremos, ao encontro da intuição mestra de toda a obra de Rûmi: «O homem transpõe infinitamente o homem», ele é um microcosmo, um espelho do divino. A dança ritual é o símbolo desta lei fundamental de analogia que rege todas as coisas. É uma maiêutica que leva a uma tomada de consciência dessa lei e, o ensinamento do mestre, por seu lado, tem por objectivo fazer aceder o discípulo à sua plena estatura espiritual. Certamente, ser-lhe-á necessário, segundo o hadîth do Profeta evocado igualmente em Fîhi-ma-fîhi, «falar com as pessoas segundo o seu grau de inteligência»; mas «algumas palavras que transmitem uma lição são como uma lâmpada acesa que deu um beijo a uma outra que ainda estava apagada e, depois foi-se embora. Isso é suficiente, e o alvo foi atingido». Eva de Vitray Meyerovitch |
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