Editora Publicações Maitreya
CRÓNICA DA INCRÍVEL HISTÓRIA DO PARTINHO
de Sousa, Vitorino de
ISBN: 978-989-99124-2-7
Idioma: Português
1ª edição (2015)
Formato: 145 x 215
N. Pág.: 190
Encadernação: Cartonada
Disponibilidade: em stock     Preço: 15,00 €
Sinopse:



Excertos:

Os acontecimentos fenomenais que vou passar a narrar passaram-se numa quinta, numa fazenda, num sítio, seja lá como for que lhe queiram chamar, algures num ponto deste mundo. Seria inconveniente revelar a sua localização, pois estou convencido de que, se denunciasse as coordenadas, em breve se organizariam romarias e excursões turísticas! De facto, quem não gostaria de peregrinar ao local onde ocorreu esta sequência de nascimentos? Quem não gostaria de acompanhar a repetição interminável desta história? Sim, porque a coisa, como é natural, continua a verificar-se; os habitantes da quinta é que não se apercebem. Se eles soubessem o que está a passar-se mesmo debaixo do seu nariz...

Então, as primeiras personagens que vos apresento são, evidentemente, o Pai Pato e a Mãe Pata. Realmente, se vamos lidar com as 12 encarnações do Patinho, temos primeiro de saber quem vai pô-los neste mundo. Todavia, de momento, pouco há a dizer sobre este casal, excepto que são dois patos jovens, perfeitamente normais e saudáveis, amantes de voar em formação pelos céus e chapinhar na água. Desde que acasalaram, porém, essas passeatas têm ficado um pouco comprometidas, por causa dos compromissos e afazeres familiares. Mas estão em paz porque gostam imenso um do outro e estão na disposição de se apoiarem mutuamente. Esperam que seja até que a morte os separe, pois, nisso, são como muitos humanos. Portanto, não vai longe ainda o dia em que quá-quaram o "sim" um ao outro. Fizeram-no em privado, sem recorrer a padres ou notários, pois foram de opinião de que, para duas criaturas se prometerem amor e dedicação eternos, não precisam de intermediários.

Quis o destino que o enlace ocorresse numa quinta, à beira de um grande lago, muito azul e bonito. A curta distância da baía que confina com o terreno da quinta, existe uma pequena ilha, cheia de juncos e arbustos. Esta ilhota embeleza sobremaneira a paisagem porque, quando se olha de terra, quebra a imensidão do espelho de água que, nos dias quentes, tende a desvanecer os contornos da outra margem. Sendo assim, estes dois patos - que nem sabem o que os espera - dispõem de todas as condições, pessoais e ambientais, para se entregarem à tarefa notável de terem o mesmo filho 12 vezes. Por questões que não vêm ao caso, resolvi passar por cima da lua-de-mel, das suas atrapalhações e vicissitudes, e começar a narrativa surpreendendo-os muito ansiosos, uma vez que todos os sinais apontam no sentido de que o Patinho está prestes a nascer pela primeira vez.

Ei-los, então, muito nervosos, fazendo de conta que nada têm para fazer a não ser fazer de conta que estão descontraidíssimos. No entanto, a verdade é que estão numa expectativa medonha. Sem conseguirem tirar os olhos do ovo que a Mãe Pata pôs há semanas atrás, esperam ansiosamente o que está para acontecer. Tentando suster a tensão gerada por nunca terem passado por aquilo, recearam que todo o processo de galação e incubação tinha falhado. Pelos vistos, tal como a maioria dos humanos, também a eles pareceu que tudo ia correr pelo pior. Isto é tão verdade que a Mãe Pata, coitada, tão extremosa, virou-se para o Pai Pato e disse-lhe assim:

- Qu é que tu achas? Isto não anda nem desanda! Será que a gente se distraiu com o tempo de incubação? Se calhar foi insuficiente. Está-me cá a parecer que o melhor é saltar outra vez p ra cima do ovo e dar-lhe mais um bocadinho de calor!
- Experimenta, amor - aconselhou o Pai Pato. Não se perde nada. Mais vale sobrar que faltar! Valha-nos Nossa Senhora! Bem nos avisaram que a primeira vez é sempre uma chatice!

E a Mãe Pata lá se ajeitou outra vez, cautelosamente, em cima do ovo. Estava ela muito descansada a transmitir mais um bocadinho de calor ao Patinho por nascer, quando olhou ternamente para o companheiro e não resistiu a confessar:

- Ai, amor, como sou feliz!
- Também eu, minha filha, também eu. Ainda há quem diga que a vida é uma tristeza.
- Quem diz isso - acrescentou a Mãe Pata - é porque ainda não se permitiu experimentar os prazeres da felicidade... Afinal, é tão simples...
- Oxalá o nosso filho nasça perfeitinho. Estou desejoso de ensiná-lo a nadar e a voar. Quero que ele seja um pato honesto, honrado e trabalhador, que respeite a Natureza e tenha consideração pelos seus semelhantes.
- Há de ser, tenho a certeza - disse a Mãe Pata, confiante. O bom Deus dos Patos não ia agora pôr-nos à prova, dando-nos um filho parecido com as pessoas. Olha, meu querido, fecha os olhos e pensa nisso com muita força. Se não tiveres dúvidas de que assim acontecerá, a coisa torna-se realidade.
- Tu é que também podias dar uma ajudinha - sugeriu o Pai Pato.
- Tá bem. Vamos lá então concentrar os nossos pensamentos nesse desejo.

E, fechando comoventemente os olhos, ambos se concentraram naquele objectivo. Deram, até, alguns suspiros.



As fotos podem não corresponder às publicações descritas.

http://www.publicacoesmaitreya.pt

Impresso em 2/9/2020 às 19:43

© 2006 - Todos os direitos reservados