![]() |
|
|
A ALQUIMIA ESPIRITUAL
de Aïvanhov, Omraam Mikhaël ISBN: 978-989-8691-26-2
Idioma: Português
1ª edição (2015)
Formato: 145x210
N. Pág.: 212
Encadernação: Cartonada Disponibilidade: em stock Preço: 19,00 €
|
|
|
Sinopse: «Por que é que a maior parte dos humanos deixa as suas tendências instintivas desenvolverem-se livremente, sem que as suas faculdades superiores tenham uma palavra a dizer, para as controlarem, para as orientarem?... Ou, então, eles atiram- se a elas para as aniquilar, como se elas fossem inimigas da sua evolução. Pois bem, em ambos os casos eles cometem um erro, pois introduzem uma divisão entre o alto e o baixo. Ora, a Inteligência Cósmica previu que as faculdades superiores obteriam as suas energias nas funções inferiores; com efeito, estas são como raízes indispensáveis, para que a árvore que o homem é possa extrair da sua “terra” as substâncias que ele transformará para dar flores e frutos. Como é que, na árvore, se processa a transformação da seiva bruta, absorvida pelas raízes, em seiva elaborada?... É nas folhas que se opera esta transformação, graças à luz do sol... Do mesmo modo, graças à luz do sol espiritual, nós podemos transformar em nós a seiva bruta, as nossas tendências instintivas, em seiva elaborada, que irá alimentar as flores e os frutos da nossa alma e do nosso espírito. Será assim que nos tornaremos verdadeiros alquimistas.» Omraam Mikhaël Aïvanhov |
|
|
Excertos: IV O administrador infiel (personalidade e individualidade) «E continuou Jesus a dizer aos seus discípulos: “Havia um homem rico, que tinha um administrador. Este foi acusado perante ele de lhe defraudar os haveres. Mandou, pois, chamá-lo e disse- -lhe: ‘O que é isto que ando a ouvir a teu respeito? Dá-me já conta da tua administração, pois não podes continuar a administrar os meus bens.’ Disse então o administrador para consigo: ‘O que é que eu hei de fazer, uma vez que o meu amo me vai retirar a administração dos seus bens? Trabalhar a terra, não posso, e tenho vergonha de mendigar. Já sei o que vou fazer para que alguém me receba em casa, quando for demitido.’ E, chamando um após outro os devedores do seu senhor, perguntou ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu amo?’ ‘Cem talhas de azeite’, respondeu ele. ‘Toma lá os teus papéis, senta-te aí depressa e escreve cinquenta’, disse-lhe o administrador. ‘E tu, quanto deves?’ ‘Cem alqueires de trigo’, respondeu ele. ‘Toma lá os teus papéis e escreve oitenta.’ E o senhor louvou o administrador infiel, considerando que ele tinha procedido com prudência.” É que os filhos deste mundo são mais prudentes relativamente aos seus semelhantes do que os filhos da luz. Também eu vos digo: granjeai amigos com as riquezas injustas, para que, quando estas vierem a faltar-vos, sejais recebidos nos tabernáculos eternos. Quem é honesto nas coisas mínimas, também o é nas grandes; e quem é desonesto nas coisas mínimas, também o é nas grandes. Se não administrardes fielmente as riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? E, se não administrardes fielmente os bens alheios, quem vos entregará o que é vosso? Nenhum servo pode servir dois senhores: ou terá ódio a um e amor ao outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir Deus e Mammon.» São Lucas, 16: 1-13 Esta parábola é muito difícil de interpretar e, até hoje, não li nenhum livro, não ouvi nenhum conferencista nem nenhum religioso que tenha dado uma explicação verídica para ela. Aparentemente, há tantas contradições neste texto que ele parece incompreensível. Contudo, já ireis constatar que ele contém muitas verdades profundas e essenciais. Jesus cita o exemplo de um administrador infiel para com o seu amo e aconselha-nos a imitá-lo: «Também eu vos digo: granjeai amigos com as riquezas injustas…» E, depois, acrescenta: «Se não administrardes fielmente as riquezas injustas, quem vos confiará os verdadeiros bens?» Portanto, Jesus encoraja, ao mesmo tempo, a fidelidade e a infidelidade, ou a desonestidade, o que é verdadeiramente estranho. Se quiserdes compreender o sentido deste texto, precisais de ser muito pacientes, esquecer por uns momentos a parábola e começar por compreender diversas coisas que esclarecerão o seu sentido. Numa conferência anterior, eu dei-vos um esquema astrológico; se souberdes utilizá-lo, podereis interpretar numerosas passagens obscuras dos Evangelhos e dos Livros Sagrados, porque ele não é uma construção artificial, representa uma realidade milenar. Vou mostrar-vos de novo o esquema. Podeis constatar que há uma linha horizontal a dividi-lo em duas partes. Há milhares de anos que os homens tentam estudar-se, para compreender a estrutura do seu ser e, para tal, têm imaginado vários modos de divisão. Uns adotaram o 2 (o espírito e a matéria, o alto e o baixo, o masculino e o feminino, o positivo e o negativo). Outros adotaram o 3 (pensamento, sentimento e vontade, o que corresponde também à divisão dos cristãos: corpo, alma e espírito). Os alquimistas dividem o homem em 4, segundo os quatro elementos. Os astrólogos dividem-no em 12, de acordo com as doze constelações. Os hindus e os teósofos dividem-no em 7 corpos: físico, etérico, (lamentamos não poder inserir o esquema representado neste local, representando ao natureza superior e a natureza inferior) astral, mental, causal, búdico e átmico. Os cabalistas dividem-no em 3, em 4, em 9 ou em 10… Finalmente, para alguns, o homem é uma unidade indivisível. Qualquer que seja o ponto de vista que se adote, ele é sempre verdadeiro; pode-se escolher o ângulo pelo qual se olha as coisas. Foquemo-nos na explicação mais simples e digamos que o ser humano é uma unidade perfeita, mas que esta unidade está polarizada. Sim, pois o ser humano é composto por duas naturezas: a natureza inferior e a natureza superior, que têm as mesmas faculdades de pensar, de sentir e de agir, mas em sentidos opostos. Para tomarmos consciência desta oposição, temos de observar-nos e, infelizmente, a maioria dos humanos mistura tudo: para eles, os pensamentos e os sentimentos inferiores são da mesma natureza que os pensamentos e os sentimentos superiores; eles não sabem distingui-los uns dos outros. Ao passo que, para os Iniciados, esta distinção é absolutamente clara, ainda que, na realidade, não se consiga encontrar o limite absoluto que separa estas duas naturezas, porque uma se funde na outra, do mesmo modo que as cores do espectro se distinguem claramente de longe, mas, se estivermos perto, não podemos discernir a linha de separação. O esquema que vos dei apresenta, em primeiro lugar, uma divisão em dois: a natureza inferior e a natureza superior, e cada uma delas apresenta, por sua vez, três divisões, que correspondem às três funções do homem: o intelecto, o coração e a vontade, isto é, o pensamento, o sentimento e a ação. Segundo o esquema, os diferentes corpos que compõem o homem são, pois: – para a divisão inferior: os corpos físico, astral e mental; – para a divisão superior: os corpos causal, búdico e átmico. Mas podemos dar-lhe, igualmente, outras denominações: – para a divisão inferior: corpo físico, coração e intelecto; – para a divisão superior: intelecto superior (ou razão), coração superior (ou alma) e espírito. Talvez vos interrogueis acerca do significado dos três grandes círculos concêntricos do esquema. Eles mostram a ligação que existe entre os corpos superiores e os corpos inferiores. O corpo átmico, que corresponde ao espírito e que é a força, a vontade e o poder divinos, está ligado ao corpo físico. O corpo búdico, que representa a alma, com todos os sentimentos mais elevados de amor, de sacrifício e de bondade, está ligado ao corpo astral. O corpo causal, veículo dos pensamentos mais amplos e mais luminosos, está ligado ao corpo mental. Este conjunto de ligações pode explicar-vos um grande número de problemas na vida e esclarecer muitas passagens dos Livros Sagrados. Assim, o reino dos minerais e dos cristais esconde os segredos mais profundos do mundo divino. Por isso, os alquimistas estavam no bom caminho, quando procuravam no mundo mineral os elementos mais eficazes e poderosos para preparar a pedra filosofal e obter a imortalidade. Os cristais são o símbolo da perfeição absoluta do mundo divino. Mas falaremos destas ligações numa outra ocasião. Já vos expliquei que os doze signos do zodíaco estão distribuídos segundo os 4 elementos (terra, água, ar e fogo), 3 signos para cada elemento, do seguinte modo: (voltamos a não poder inserir o esquema) Como eu já vos disse (esquema da p. 69), o corpo físico está sob as influências da Lua e Saturno, e o corpo átmico sob as do Sol e de Saturno . Os corpos astral e búdico são influenciados por Vénus e Marte , e os corpos causal e mental por Mercúrio e Júpiter . As formas dos corpos inferiores estão todas em signos de terra e os seus duplos em signos de água, ao passo que as formas dos corpos superiores estão em signos de ar e os seus duplos em signos de fogo. A parte inferior do esquema corresponde, portanto, ao grupo terra-água, e a parte superior ao grupo ar-fogo. Esta disposição não é arbitrária, existe em toda a criação, e é deste modo que o nosso planeta está construído: primeiro, o solo, a terra, e por cima a água, que cobre uma parte dela e a penetra; depois, por cima deste grupo terra-água, o grupo ar-fogo; o fogo, isto é, a luz, os raios solares que penetram no ar como a água penetra na terra. Em astrologia, é dada uma especial importância aos dois luminares – o sol e a lua –, pois a nossa terra está particularmente colocada sob a sua influência. Ora é a do sol que predomina, ora é a da lua. O sol, a lua e a terra representam a divisão ternária: espírito, alma e corpo. O sol simboliza tudo o que é estável, imutável – a natureza superior; a lua simboliza o que é passageiro, variável – a natureza inferior. As paixões, os pensamentos vulgares que levam os homens a enganarem-se e a roubarem-se uns aos outros, as agitações, as inquietações, a vaidade, a sede da glória, tudo o que é interesseiro, egoísta, e que só tem em vista as satisfações materiais, também faz parte da natureza inferior. A natureza superior, pelo contrário, é formada por todas as tendências para o bem: o desejo de justiça, de verdade, o desejo de aprender, a necessidade de ajudar os outros, de se sacrificar, de ser generoso e pleno de amor. O homem no qual a natureza inferior é dominante alimenta pensamentos e sentimentos egocêntricos, que têm como único objetivo a sua própria satisfação. Nele, a natureza superior está como que oculta e encontra-se limitada nas suas manifestações. Pelo contrário, nos seres cheios de devoção, que respeitam os outros seres e têm o alto ideal de se aperfeiçoar no domínio das virtudes, a natureza inferior enfraquece e a natureza superior reforça-se.1 Para simplificar as coisas, chamaremos à natureza superior “individualidade” e, à natureza inferior, “personalidade”. Já vos explicarei porquê. Encontrareis na arte, na literatura, na pintura, etc., numerosas representações da personalidade e da individualidade. Dai uma olhadela pelos desenhos de Daumier e tereis uma ideia das fisionomias hediondas que certas personalidades podem adquirir. A personalidade quer mostrar-se à viva força e, para isso, está disposta a empregar todos os meios, agradáveis ou desagradáveis; cobre-se de cores gritantes, de roupas excêntricas, e faz-se notar por um riso grotesco, por gestos afetados. Quer mostrar-se sempre mais do que é, como um peru que enfuna as suas penas para ficar com mais volume. Mas, acima de tudo, ela é extremamente mutável e passa de um estado a outro com uma facilidade incrível: alegre e depois triste, otimista e depois desanimada, simpática e depois maldosa. Ela receia a fome, a pobreza, a morte, e faz cálculos incríveis para assegurar a sua alimentação e toda a espécie de posses. Mas não consegue guardar nada, porque é um abismo sem fundo, onde tudo se perde. A personalidade tem apenas um propósito: o interesse; e por ele é capaz de mudar de filosofia, de religião ou de opiniões políticas com a rapidez que as circunstâncias requerem. A individualidade age de um modo oposto ao da personalidade. Não tem pressa de se mostrar, nunca lança poeira para os olhos dos outros e não grita para ser notada, pois tem a certeza de que será descoberta quando for necessário. Para isso, conta apenas com as suas qualidades e com o seu trabalho. Tem em si uma convicção estável, inabalável, uma fé e uma esperança constantes e firmes. Ela não varia, o seu ponto de vista mantém-se imutável. A personalidade é representada pela metade inferior do esquema e a individualidade pela metade superior. A individualidade manifesta- se pelas virtudes mais elevadas: a sabedoria (no plano causal), o amor (no plano búdico) e a verdade (no plano átmico). Cada virtude tem um poder particular: a sabedoria traz-nos a luz, o saber real, baseado nos princípios eternos; o amor dá-nos a vida, a felicidade; e a verdade abre-nos as portas e liberta-nos. A verdade pode dar-nos a felicidade e a vida, mas só por intermédio do amor. Por si própria, ela não pode proporcioná-los, pelo contrário, é frequente ela começar por trazer sofrimentos e tormentos. É por isso que muitos homens recusam ver a verdade, temem-na. A sabedoria pode libertar-nos e tornar-nos felizes, mas por intermédio da verdade e do amor. A sabedoria não pode libertar-nos nem tornar-nos felizes, por vezes até acontece o contrário, ela torna-nos melancólicos e pessimistas. Quanto ao amor, esse não pode libertar nem iluminar, proporciona unicamente a dilatação, a alegria e a vida. Mas, com o amor, a sabedoria e a verdade reunidos, surgem a plenitude, as bênçãos do Céu, a perfeição do ser.2 Infelizmente, os humanos confiam demasiado na sua personalidade e quase todos procuram a liberdade, a felicidade e a luz no lado inferior da sua natureza. Não, com a personalidade apenas se encontra a fraqueza no plano físico, os desgostos no plano astral e os erros no plano mental. Isto é tudo o que a personalidade humana pode dar, a despeito das suas aparências sedutoras. Ela assemelha- -se a uma bola de sabão: a bola de sabão eleva-se no ar, cintilante, irisada, mas rebenta muito depressa. Debrucemo-nos agora sobre os termos “personalidade” e “individualidade”. É muito frequente usar-se um e outro indiferentemente, e diz-se que um homem tem uma forte personalidade ou, então, uma forte individualidade, para exprimir exatamente a mesma coisa. Talvez encontreis outras definições nos dicionários, mas, para o que eu pretendo explicar-vos relativamente à natureza superior e à natureza inferior no homem, dir-vos-ei que, para definir o termo “personalidade”, se pode partir da etimologia da palavra latina persona. Persona era a máscara que o ator romano punha no teatro para representar, pois, como sabeis, na Antiguidade os atores usavam uma máscara. Imaginai, então, um ator: um dia, ele representa o papel de um homem sensato, de um sábio; noutro dia, o de um criminoso, de um traidor ou de um sedutor. Ele é sucessivamente Cyrano de Bergerac, Gribouille, Alexandre Bórgia, São Luís. Estas diferentes máscaras, estes diferentes papéis, representam a personalidade. Quanto à individualidade, é o artista que permanece sempre o mesmo, ao longo de todos esses papéis. Este exemplo do ator mostra-nos que a personalidade é mortal, efémera; do mesmo modo que o papel termina quando a representação acaba, ela dura somente uma encarnação. Na próxima encarnação, surge uma outra personalidade. Ao longo destas mudanças de personalidade, a individualidade não varia, é sempre a mesma, embora vá progredindo com o passar dos milénios, acumulando as experiências vividas através da personalidade. Ela manifesta-se ora num papel, ora noutro, revestindo-se de personalidades diferentes, em cada encarnação. Tudo isto é muito fácil de entender e permite-nos perceber que uma pessoa que é rica, saudável e bela nesta existência, na próxima encarnação pode voltar pobre, fraca e sem beleza, se agora não fizer nenhum esforço espiritual. Pelo contrário, aquele que trabalha com o seu espírito, a sua inteligência divina, a sua alma (cumprindo o papel que lhe foi imposto nesta encarnação), adquire qualidades, virtudes e riquezas que permanecerão na sua individualidade e lhe pertencerão eternamente. Quando deixar de representar o papel da sua personalidade, partirá com essa bagagem espiritual e, depois, viajará pelo universo com esses bens, que são verdadeiros. Ninguém poderá retirar-lhos. Exatamente como o ator que, tirando partido dos seus papéis para se aperfeiçoar e para se desenvolver, abandona o palco com ideias mais vastas, assim o homem deve sair do palco terrestre enriquecido pela sua experiência. O que faz dos seus bens alguém que, ao longo da sua existência, acumula apenas riquezas materiais? Tem de abandoná-los quando deixa o seu papel terrestre – é esta a lei – e encontra-se, subitamente, pobre, desprovido de tudo. A sua individualidade, como partiu sem bagagens – quer dizer, sem nenhuma aquisição espiritual –, voltará à terra para dar continuidade a esse desfecho e terá de encarnar-se numa personalidade privada de todos os bens, pois não os mereceu, e a pessoa será obrigada a trabalhar imenso para os adquirir. Não quero com isto dizer que se deve renunciar à posse de objetos materiais, de roupas, de propriedades… Não. Todas essas coisas são necessárias na terra, tal como o cenário e os trajes são indispensáveis ao ator, mas não mais do que isso. Nós fomos enviados ao mundo exatamente como o administrador da parábola entrou ao serviço do seu amo. Não podemos abandonar esse amo, mas ele pode despedir-nos, se nos tornarmos maus servidores. Quando o homem morre, é porque foi despedido. A personalidade assemelha-se a quê? Por certo, já vistes pavões. Toda a gente gosta de os observar e os admira: eles abrem a cauda, viram-se para todos os lados, para se mostrarem bem, e sente-se que eles têm orgulho nas suas penas. Vós achai-los magníficos e aproximais-vos. Então, eles querem fazer-vos ouvir a sua bela voz, mas dão gritos tão horríveis que vós ficais assustados e a vossa opinião acerca deles muda imediatamente. A personalidade manifesta- -se completamente no pavão. O homem que, em vez de trabalhar para adquirir a sabedoria, o amor e a verdade, só pensa em exibir-se, em pavonear-se em frente dos outros, em ostentar a sua riqueza, a sua inteligência e o seu poder, é como um pavão que abre a cauda em leque e que grita com uma voz estridente: «Olhem para mim! Não há outro como eu no mundo.» Ao passo que o rouxinol, esse não se exibe. Ele não tem vestes reluzentes, mas possui uma voz! Não é grande, nem bonito, no entanto, quando canta, os poetas e os enamorados vêm escutá-lo. O rouxinol manifesta-se de uma forma diferente do pavão; ele é um símbolo da individualidade. A personalidade e a individualidade manifestam-se sob muitas outras formas! Um homem que anda sempre a queixar-se de ter sido posto em más condições, que são um obstáculo à sua evolução, e que considera que os progressos feitos pelos outros só se devem às boas circunstâncias que eles encontraram nas suas vidas, é a imagem da personalidade. Pelo contrário, um outro homem que nunca se queixa de nada, mesmo que tenha de viver nas piores condições, e que trabalha para desenvolver as suas qualidades, é a imagem da individualidade. Usemos um outro exemplo, agora no reino vegetal. Observai uma palmeira. Ela cresce nas areias do deserto, onde o sol queima atrozmente, a terra é pouca e a água é extremamente rara, contudo ela diz: «Eis o que eu posso fazer nas piores condições», e oferece as suas tâmaras, que são mais açucaradas e doces do que qualquer outro fruto. A palmeira é uma verdadeira alquimista: transforma a areia em açúcar. Pelo contrário, um outra árvore, plantada num solo muito rico, bem regado, e onde o clima é favorável, não consegue passar de uma ameixeira brava com frutos amargos. Há muitos homens que são como a ameixeira brava: vivem em condições favoráveis, mas os seus frutos são amargos e eles andam sempre a queixar-se. Isto prova que eles ignoram as riquezas que existem neles e a maneira como podem utilizá-las. A personalidade está sempre a queixar-se. Ela proclama por toda a parte que, se estivesse alojada num palácio, saberia fazer milagres. Mas a experiência prova que, nas regiões mais favorecidas, existem ameixeiras bravas e muitas outras árvores cujos frutos são insípidos, ácidos ou amargos. Vou agora contar-vos uma história. Numa aldeia da Bulgária, os camponeses estavam todos a cantar e a dançar, martelando alegremente o chão com as suas botas. Estava lá um jovem camponês que não podia dançar, porque não tinha botas. Mas, a dada altura, ficou com tanta vontade de ir também dançar, que pediu a um amigo que lhe emprestasse as dele. Feliz por poder, finalmente, entrar na roda, pôs-se a bater com os pés no solo com todo o vigor. Vendo isto, o amigo que lhe tinha emprestado as botas gritou-lhe: «Eh, não batas com tanta força! Assim, vais estragar-me as botas!» O dançarino sentiu-se envergonhado por toda a gente ter ficado a saber que ele tivera de pedir umas botas emprestadas. Um outro amigo, vendo o seu embaraço, disse-lhe baixinho: «Tira essas botas. Eu vou emprestar-te um par com o qual poderás dançar à vontade.» Então, ele mudou de botas e voltou a entrar na roda. Mal tinha entrado, o outro gritou-lhe: «Vá! Bate à vontade!... Se estragares essas, eu empresto-te outro par.» O pobre camponês ficou corado de vergonha, pois, pela segunda vez, todos tomavam conhecimento de que ele não tinha botas. Eis mais um exemplo de como a personalidade se manifesta: gritando bem alto os serviços que prestou. Eu bem sei que, neste caso, se trata apenas de uma história de botas, mas quantos casos não existem na vida em que a personalidade do homem se vangloria do bem que faz! O Cristo dizia: «Que a tua mão esquerda ignore o que faz a tua mão direita», isto é, que a personalidade ignore o que faz a individualidade. Devemos realizar as boas ações secretamente, porque, se a personalidade se aperceber delas, tentará destruí-las. É por isso que os Iniciados escondem cuidadosamente o bem que fazem. Eles sabem que, se falarem nisso, os outros intrometer-se-ão no assunto e destruirão tudo. Conta-se que, um dia, o profeta Maomé passeava com um dos seus discípulos, quando, bruscamente, apareceu perante eles um homem que gritou ao discípulo: «Ah! Finalmente, encontro-te! Vais pagar-me o dinheiro que me deves!». E começou a injuriá-lo em termos muito grosseiros. O discípulo começou por escutá-lo, calmamente, tentando conter a cólera, mas, incapaz de se controlar, depressa começou a responder-lhe, de modo que acabaram ambos por se injuriar ao desafio. Ao fim de algum tempo, cansados, pararam. Mas, quando o discípulo procurou o Mestre por perto, já não o viu. Descobriu-o mais longe, no canto da rua, em meditação. «Mestre – disse o discípulo –, por que me abandonaste?» Maomé respondeu-lhe: «Eu não me meto entre uma serpente e um tigre, porque é perigoso. Enquanto aquele homem estava a injuriar-te e tu permaneceste calado, havia à tua volta seres invisíveis que respondiam por ti e te protegiam. Mas, quando começaste também a gritar, querendo defender-te a ti próprio, esses seres abandonaram-te, e eu também, pois já não estávamos ali a fazer nada.» Quando a individualidade se manifesta, não o faz através do mundo físico pela cólera, pela violência, mas através da nossa natureza superior, pela sabedoria, pelo amor e pela verdade. Então, nós somos poderosos, porque estamos ligados a seres perfeitos, que nos apoiam, e o nosso inimigo acaba por compreender (mesmo que não seja de imediato) que foi mau. Por isso, devemos ser muito pacientes, muito resistentes. A personalidade não pode ficar muito tempo calada: faz promessas, chora, dá gritos de alegria… Mas muda rapidamente. É como a lua, que está sempre a variar. Se contardes com um ser que se manifesta através da sua personalidade, mais tarde compreendereis o vosso erro, ao ver como ele é volúvel e instável. A individualidade, pelo contrário, é uma força estável, na qual podemos confiar, como o sol. A personalidade procura todas as satisfações egoístas. Ela não se preocupa com os outros (a não ser que tenha algum interesse nisso), não se questiona sobre se eles estão ocupados ou se sofrem; quer unicamente satisfazer-se a si mesma. Ao passo que a individualidade se interessa sempre pelos outros de um modo imparcial; ela questiona-se sempre sobre se aquilo que pensa e deseja é para o bem de todos, e é delicada, atenta, sábia e prudente. As entidades celestes escolhem sempre aqueles que são capazes de realizar atos nobres e desinteressados para lhes transmitirem aquilo que elas vêm trazer. E, como a maioria dos humanos vivem na personalidade, não recebem do alto nem a felicidade, nem a liberdade, nem a vida; eles são limitados, dependentes, infelizes. Olhai para eles: todos se queixam constantemente, já não sabem às quantas andam, sentem-se limitados, atormentam-se, o que prova, precisamente, que eles vivem na sua personalidade. Há muitas pessoas que esbanjam as suas vidas tentando satisfazer a sua personalidade… Ou a dos outros! A mãe passa o tempo a satisfazer os caprichos do filho, o marido a satisfazer todos os desejos da mulher, a mulher a satisfazer todos os desejos do marido… E, então, o que é que acontece? A personalidade, que é ingrata por natureza, esquece imediatamente o bem que lhe fazem, e depois, um belo dia, em vez de pagar através do reconhecimento àqueles que a satisfizeram, só lhes mostra indiferença, desprezo ou até ódio. Deveis saber que, se satisfizerdes unicamente o lado inferior dos humanos, nunca sereis recompensados por isso; e, se depois, começarem a acontecer-vos desgraças, não vos queixeis, pois não tendes o direito de o fazer. Antes de vos sacrificardes pelos outros, deveis questionar-vos sobre qual o lado que ides servir neles: a personalidade ou a individualidade. A personalidade não tem qualquer memória daquilo que se fez por ela: é ingrata, fraca, pérfida. Por isso, enquanto apenas satisfizerdes os apetites, os caprichos e as necessidades sensuais dos outros, mais cedo ou mais tarde ficareis desiludidos, dececionados. Se não quereis ficar dececionados com os seres, deveis trabalhar para alimentar as suas almas, os seus espíritos, isto é, iluminá-los, dirigi-los para a fonte, Deus, para que eles se liguem a Ele, O louvem e O glorifiquem. Milhares de pessoas ficam estupefactas ao verem que a fé e a confiança que têm nos outros são ridicularizadas. Mas isso acontece precisamente porque elas depositam toda a sua esperança nos resultados que obterão alimentando o lado inferior dos outros. É certo que eu ouvi, muitas vezes, certos pais darem aos seus filhos conselhos focados unicamente na satisfação da sua personalidade: ensinam-lhes a astúcia, a sede de dinheiro ou de prazeres, a procura do seu bem-estar pessoal em detrimento dos outros. Pois bem, ao crescerem, essas crianças começam a aplicar estes conselhos, com prejuízo para os seus próprios pais, que, evidentemente, se lamentam, sem se lembrarem de que foram eles mesmos que os instruíram nestes métodos. O espírito, no homem, é um infeliz prisioneiro. É um rei que a personalidade destronou, para tomar o seu lugar. Presentemente, ele está encerrado numa masmorra, onde lhe dão como alimento côdeas de pão bolorento e água poluída, e de onde apenas pode ver o dia por uma pequena fresta. Ninguém vem libertá-lo para lhe restituir o seu lugar de verdadeiro soberano. Os homens apreciam aquilo que é feito em função das suas satisfações materiais e do seu corpo físico, mas os Iniciados, os anjos e Deus prezam apenas o que se faz pela alma e pelo espírito.3 O que será do alimento que destes aos vossos amigos, se não lhe tiverdes juntado um outro alimento que dura eternamente: pensamentos, saber, a luz, a liberdade? É preciso mudar a ideia que se tem de caridade, pois há um tipo de caridade que não tem um efeito duradouro e uma outra cujos efeitos duram eternamente. As pessoas comuns não sabem alimentar o espírito dos seus pais, dos seus amigos, não sabem torná-los mais belos nem mais fortes. A verdadeira caridade, a dos Iniciados, consiste em fazer com que o homem retome a realeza do seu espírito. Pode acontecer que um Iniciado se ocupe da personalidade dos outros (isto é, que ele os cure ou lhes dê ajudas materiais), mas fá-lo como algo secundário. Frequentemente, a caridade comum desenvolve nas pessoas os piores defeitos: encoraja-as a ser preguiçosas, impele-as a aproveitarem-se cada vez mais dos outros, aumenta a sua convicção de que as pessoas caridosas são crédulas e ingénuas, de tal modo que, em vez de se tornarem úteis, livres, independentes e capazes de vencer pelos seus próprios meios, elas tornam-se verdadeiros parasitas da sociedade. Agora, que compreendestes a diferença que existe entre a personalidade e a individualidade, deveis compreender ainda uma coisa muito importante: é que a personalidade e a individualidade devem caminhar juntas. O que eu vos disse acerca da personalidade não significa que se deve matá-la, suprimi-la, aniquilá-la. Não, ela deve ser a serva da individualidade. Sem a personalidade, a individualidade não pode manifestar-se. A personalidade é comparável à forma, e a individualidade, ao conteúdo. A forma é necessária, mas deve exprimir o conteúdo. Se a forma é estúpida, sem sentido, isso é a submissão completa do ser humano. Quando a personalidade se torna serva do espírito humano, este poderá fazer milagres. Ficai a saber que tudo o que entrava o espírito, tudo o que o impede de compreender, de criar, de agir livremente, é a personalidade. Observai o caráter daqueles que vos rodeiam e constatareis que, quanto mais a personalidade predomina, mais limitada e cheia de preconceitos é a pessoa. Ora, o mínimo preconceito acerca das opiniões filosóficas ou religiosas, nas relações com os humanos ou no trabalho, traz consigo complicações na compreensão e na atividade. E não existe pior preconceito do que o da personalidade que se irrita, que se defende, que se vinga e muda incessantemente de ponto de vista. É justamente porque todas as iniciativas da personalidade têm um fim interesseiro que ela está condenada a nunca ver a realidade das coisas. Quando um Iniciado vê chegar à sua escola seres cuja personalidade está muito desenvolvida, prevê logo quais os obstáculos que eles encontrarão e que dificuldades terá para os instruir. A fórmula absoluta dos Iniciados é a seguinte: quanto mais se domina a personalidade, isto é, quanto mais nos limitamos e nos controlamos, mais nos libertamos e aumentamos a nossa força. Se eu vos explicasse, detalhadamente, todas as tendências que alimentais nos vossos pais e amigos, pensando que estais a ajudá- -los, ficaríeis alarmados. Pensais que os alimentais a eles, mas, de facto, estais a alimentar neles entidades que não conheceis, estranhos que comem e bebem por vossa conta sem sequer, depois, vos darem como paga um só sentimento de reconhecimento.4 A verdadeira ciência da Iniciação consiste precisamente em conseguirmos discernir com exatidão as entidades que alimentamos, em nós próprios e nos outros. Agora, já estais preparados para compreender o sentido da parábola do administrador infiel. A personalidade e a individualidade têm a sua sede no grande mundo, o macrocosmos, o universo, mas também no pequeno mundo, o microcosmos, o homem. No homem, a sede da personalidade é o ventre e o baixo-ventre, isto é, o que está abaixo do diafragma. A sede da individualidade é nos pulmões, no coração e no cérebro, ou seja, no que se encontra acima do diafragma. A linha horizontal do esquema que eu vos apresentei corresponde, portanto, ao diafragma. Talvez penseis que tudo o que se encontra abaixo do diafragma está privado de pensamento, de sentimento e de atividade. Desenganai-vos! O ventre tem um cérebro, um coração e uma vontade. Por que é que se diz, de certas pessoas, que “têm o coração na barriga!”?* Eu não tenho a intenção de criar uma nova anatomia, mas deveis ficar a saber que estas duas regiões, acima e abaixo do diafragma, representam dois senhores em cuja casa o homem está colocado e a quem deve servir. Sim, é uma longa história, uma longa aventura. Quando o homem vem à terra, entra ao serviço de um amo, o corpo físico, o estômago, mas, mais cedo ou mais tarde, é despedido, ou seja, morre. Se ele for inteligente, deve refletir nos mesmos moldes que o administrador da parábola: «Com o que é que eu vou ficar, se o meu amo me retirar a administração dos seus bens? Trabalhar a terra, não posso… Mendigar? Tenho vergonha…» O administrador sensato sabe muito bem que, quando deixar o seu corpo físico, esse amo eternamente descontente, quererá continuar a trabalhar na terra, mas já não terá os meios para isso. Tendo conservado as mesmas necessidades de comer, de escutar e de experimentar toda a espécie de prazeres, ele será tentado a mendigar, isto é, a descer junto dos vivos, a fim de se satisfazer através deles. É isto que acontece aos administradores muito fiéis à personalidade: tornam-se mendigos no plano astral e dirigem-se para todos os lugares contrários aos bons costumes, onde a multidão se diverte, a fim de participarem nesses prazeres. Ora, o administrador infiel era inteligente, não queria entrar nesta categoria de espíritos mendigos. Aconselhado pela sua razão, decidiu fazer amigos à custa de dinheiro e, para tal, reduziu a dívida aos devedores do seu amo. O que é que isto significa? Que, em vez de proporcionar ao seu ventre, aos seus diferentes órgãos, copiosas refeições e prazeres excessivos, como faz normalmente a maioria dos humanos, resolveu diminuir a proporção de alimentos ou de satisfações que julgava dever a cada um deles. Dito de outro modo, estabeleceu um regime de restrições para a personalidade, diminuindo o número de refeições copiosas, de cigarros, de amantes, etc.; e as forças, os pensamentos, o tempo, que deviam ser dedicados ao amo insaciável e devorados por este, o administrador deu- -os, secretamente, aos amigos invisíveis dos tabernáculos eternos. Ou seja: ele economizou um capital, para o depositar num banco celeste, para que, no dia em que for apresentar-se ao “guichet” desse banco, o reconheçam e o acolham. Ele dedicou tempo, energias, e deu uma parte do seu amor, dos seus pensamentos e dos seus sentimentos à individualidade, em vez de os reservar para a personalidade. Foi, pois, infiel à personalidade, para conseguir fazer amigos graças às riquezas que “injustamente” lhe retirou. * Devido ao sentido da frase, optou-se pela tradução à letra da expressão usada no original – “avoir du coeur au ventre” –, que, na verdade, significa “ser corajoso”. (N. R.) Se não interpretarmos deste modo os termos da parábola, não poderemos compreender por que é que o administrador foi louvado pelo seu amo. Que amo é que o louvou? Não foi, certamente, a personalidade, que ele lesou. Por conseguinte, foi a individualidade que lhe disse: «Tu és muito inteligente. Agiste bem.» Porque só são permitidas uma infidelidade e uma injustiça; aquelas que cometemos relativamente à personalidade, isto é, àquilo que é inferior, egoísta e efémero. Pelo contrário, nunca é permitido ser infiel para com Deus, os anjos, a pureza, a bondade. Atualmente, toda a gente é fiel ao ventre, ao sexo, isto é, à personalidade, e infiel a Deus; os humanos são diligentes, quando se trata de contentar as suas paixões, os seus desejos inferiores, mas traem continuamente o Senhor. Quantos homens não vi eu que são fiéis… ao proprietário da taberna onde vão todos os dias! Outros são fiéis ao seu tabaco ou a uma paixão qualquer, a um vício, a um hábito doentio. Poucas pessoas são fiéis a hábitos superiores. Ora, a verdadeira fidelidade é a de nunca negligenciar a oração, os pensamentos e os sentimentos desinteressados. Talvez vos interrogueis acerca do que representam os devedores cuja dívida foi perdoada e de que natureza era essa dívida. Os devedores são entidades do mundo invisível que, vindo retirar certos elementos espirituais ao homem, devem pagar-lhos, sob a forma de energias, de forças, menos subtis. Ao perdoar as dívidas a estas entidades, o homem renuncia a essas forças que, consequentemente, lhe teriam sido dadas, quer dizer, entra na via da abstinência (o jejum, a castidade, o silêncio, a oração, a meditação). Estas medidas de restrição têm como consequência um dispêndio de menos energias do que aquelas de que corpo físico habitualmente necessita. Quando o corpo físico renuncia parcialmente aos seus apetites, o lado superior, que já não tem de fornecer tantas forças e fluidos, torna-se mais forte. Mas, quando o lado inferior come e se diverte em demasia, o lado superior, que já não consegue manifestar-se, enfraquece, porque é ele que fornece as energias que se manifestam no plano físico. E, observai, Jesus não disse na parábola que o administrador infiel perdoou aos devedores a totalidade das suas dívidas, mas apenas uma parte. Isto significa que o homem não deve praticar as restrições com excessos, que ele não deve ir até aos extremos, até à mortificação e ao ascetismo absolutos. Jesus mostra que o homem deve trabalhar para o primeiro senhor (a individualidade), mas que não tem o direito de abandonar o segundo (a personalidade), ou seja, que ele não tem o direito de se privar de tudo e de se deixar morrer à força de renúncias. Ele deve ser infiel em relação ao segundo amo, mas só em certa medida. Suponhamos, por exemplo, que uma mulher só se interessa pela sua aparência física e descura por completo o seu desenvolvimento intelectual e o seu desenvolvimento espiritual, preocupando-se apenas com os cuidados a ter com o corpo e com o rosto. De facto, ela torna-se extremamente sedutora, doce como o mel que atrai de longe as vespas e as moscas; ela tem imensos amigos, é festejada, adulada… Alguns anos mais tarde, já não é tão atraente e os amigos abandonam-na; ela lamenta o passado, sofre e sente-se isolada. De facto, as pessoas só procuram aqueles que podem dar-lhes alguma coisa; e agora, que está privada da sua beleza, essa mulher não tem ninguém que a visite e lhe traga consolo. Se ela tivesse agido como o administrador infiel e sensato, se tivesse previsto que, um dia, o seu amo a despediria, ter-se-ia preparado para essa mudança de situação, teria começado a estudar, a desenvolver a bondade, a inteligência, a fim de continuar a ter os seus amigos quando já não fosse bela. E tê-los-ia mantido, porque teria ficado com um aspeto agradável, apesar da idade. Tenho observado, frequentemente, que as mulheres que cultivam a sua individualidade, quanto mais envelhecem, mais radiosas, encantadoras e luminosas se tornam. Ao passo que aquelas que serviram exageradamente a sua personalidade ficam cada vez mais deformadas e feias, pois vivem de lamentos, de inveja, de cólera e de ódio por todos, o que lhes dá uma expressão repugnante.E, como chegará para cada um de nós o dia em que seremos despedidos pelo nosso amo, devemos preparar-nos e fazer amigos noutro plano, pois estes amigos não existem no plano físico, a frase da parábola é simbólica: «Também eu vos digo: granjeai amigos com as riquezas injustas.» Aquele que tem por hábito comer muita carne – vaca, porco, galinhas, enchidos – congrega em si todas as células roubadas a estes animais para com elas construir o seu corpo físico. Ele deve, pois, fazer amigos graças a esse edifício construído com riquezas injustas, para que, quando o seu corpo lhe for retirado, ele possa ser recebido por esses amigos nos tabernáculos eternos. E como fazer isso? Reduzindo as doses. Se até agora pensáveis que devíeis ao vosso amo (o estômago) cinco dúzias de ostras, um quilo de caviar, uma dúzia de salsichas, vários perus, etc., tudo isto copiosamente regado com os melhores vinhos e seguido de café, alguns licores e cigarros, procurai reduzir um pouco este menu: não deixareis de ficar bem alimentados e tereis reduzido as dívidas para com certas entidades que deveriam fornecer-vos as forças necessárias para digerir uma tal refeição. Deste modo, fareis amigos entre essas entidades invisíveis, que, mais tarde, vos receberão nos tabernáculos eternos. Esta restrição referente ao estômago deve ser compreendida não apenas em relação às satisfações e aos prazeres do plano físico, mas também às dos planos astral e mental, que pertencem à personalidade, tal como vos mostrei no esquema. E quando Jesus disse: «Quem é honesto nas coisas mínimas também o é nas grandes; e quem é infiel nas coisas mínimas é-o também nas grandes. Se não administrardes fielmente as riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras?», isto significa que, se não fordes fiéis à individualidade nas pequenas coisas terrestres, não poderão ser-vos confiadas as grandes riquezas do espírito. Esta parábola prova que Jesus fez numerosas revelações aos seus discípulos, mas os evangelistas relataram apenas uma pequena parte delas. E agora é preciso interpretar, o que não é muito fácil. Há, evidentemente, uma primeira possibilidade de interpretação, que consiste em estudar cada palavra, em comparar as diferentes versões, em reportar-se aos textos hebreu e grego primitivos, em procurar as lacunas, as deformações voluntárias ou não, as cópias mal feitas, em aprofundar algumas questões do ponto de vista histórico, etc. É a isto que se chama a exegese sagrada. Toda a gente se interessa por este tipo de pesquisas, mas, mesmo prosseguindo-as eternamente, nunca se chegará a encontrar a chave das Escrituras. Confesso-vos que, apesar de eu ter lido muitas coisas sobre estas questões, não me interessa saber como foram escritos os Livros Sagrados e onde se encontram os erros de tradução e de reprodução. Para mim, essa erudição não é assim tão importante. O que me interessa é saber o que pensava Jesus, o que ele subentendia, quando falava por parábolas, e é difícil saber isso através da exegese. Mas as palavras de Jesus ainda estão vivas na “crónica do Akasha” e nós devemos elevar-nos até aí, para descobrir o seu sentido. Quando o tivermos compreendido, voltaremos ao plano físico para interpretar o texto. Com os meios normais, apenas podemos conhecer o sentido literal, no plano da forma. Ora, a verdade não pode ser encontrada no plano físico, na forma; só a descobrimos se nos elevarmos muito alto. O verdadeiro sentido está nos planos superiores, no alto, e, se não interpretarmos os Livros Sagrados elevando-nos interiormente, não poderemos apreender o seu sentido. O primeiro método, a exegese, é o da personalidade; o segundo é o da individualidade. Pelo método da individualidade, o espírito tem acesso às regiões mais elevadas, onde se encontram as explicações de todas as coisas, ao passo que o método da personalidade fá-lo descer a um ponto onde só se encontram fragmentos, farrapos deformados da verdade. Quando as pessoas se envolvem em grandes discussões e argumentações complicadas, afastam-se do sentido e do conteúdo, que se tornam cada vez mais incompreensíveis.5 Ao elevar-se, o nosso espírito alcança seres mais evoluídos do que nós, conhecedores das grandes verdades contidas nos textos sagrados e que nos esclarecem a este respeito. Ao passo que a exegese, o método da personalidade, faz o espírito descer até seres inferiores que nos enganam. A primeira via conduz à humildade, porque incita o homem a comparar-se, inconscientemente, com os seres superiores com quem entra em contacto. E essa comparação leva-o a considerar-se ignorante, fraco, imperfeito, e a humildade começa a nascer nele. Ao passo que, ao descer, ele é obrigado a comparar-se com os humanos vulgares, os animais, os insetos, os micróbios, e então, claro, acha-se grandioso, sabedor, único, e o orgulho invade-o. Quando o discípulo ergue o olhar para os seres muito evoluídos, vê a sua imperfeição e compreende o trabalho que ainda deve realizar em si próprio, torna-se humilde, abre-se, e o Céu começa a derramar sobre ele as suas bênçãos. Pelo contrário, o orgulhoso, que está sempre a comparar-se aos seres minúsculos, para na sua evolução, fecha-se. O orgulho é uma barreira. Jesus disse-o: «Se não vos tornardes como as criancinhas, não entrareis no Reino de Deus.»6 Contrariamente àquilo que se crê, criança não significa ignorante, pelo contrário. Por isso, é necessário que venha uma nova cultura: a da criança, da simplicidade, do amor, da humildade, em que os homens se compararão aos Iniciados, aos grandes Mestres, aos anjos… e sentirão o quanto ainda têm de aprender. Então, a sabedoria, o amor e a liberdade aparecerão no mundo. Em geral, os humanos instruem-se com a ajuda de experiências insuficientes, feitas pela sua personalidade. Mas os discípulos, os Iniciados, instruem-se junto da verdadeira luz, junto do Espírito; e é por isso que eles se tornam clarividentes, curadores, profetas. Aqueles que se instruem nas escolas, junto de personalidades humanas, também sabem qualquer coisa, mas a maior parte do seu saber não lhes serve para melhorarem a sua saúde, nem para aumentarem a sua felicidade ou a sua sabedoria. Jesus falou de dois senhores. Lede o fim da parábola: «Nenhum servo pode servir dois senhores: ou terá ódio a um e amor ao outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir Deus e Mammon.» Mais adiante, está escrito: «Aquele que é engrandecido entre os homens é uma abominação perante Deus.» Portanto, aquilo que é glorioso para a personalidade, para o mundo, é odioso para a individualidade, para o espírito. A personalidade procura a aprovação do público, da multidão ignorante, enquanto a individualidade procura a do mundo divino. Esta parábola do administrador infiel está relacionada com os versículos do Evangelho de São Mateus: «Não acumuleis tesouros na terra, onde os vermes e a ferrugem os destroem, e onde os ladrões penetram e roubam; mas acumulai tesouros no céu, onde nem os vermes nem a ferrugem entram neles ou os destroem, e onde os ladrões não penetram nem roubam. Pois, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. O olho é a luz do teu corpo. Se o teu olho estiver em bom estado, todo o teu corpo estará iluminado. Porém, se o teu olho ficar em mau estado, todo o teu corpo estará em trevas. Ora, se a própria luz em ti se houver tornado em trevas, quão grandes serão essas trevas! Ninguém pode servir dois senhores, pois ou odiará um e amará o outro, ou afeiçoar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir Deus e Mammon.» Isto prova que Jesus falou em várias ocasiões sobre esta questão dos dois senhores. Mas eu já vos disse e repito: não se deve matar a personalidade. A personalidade é magnífica, quando se torna serva da individualidade. Sem a personalidade, não podemos fazer nada na terra; mas o seu papel é o de serva e ela não deve deixar de o ser, pois, quando ela começa a querer desempenhar o papel de dona de casa, tudo no homem sofre uma reviravolta e ele age sem bom senso. Procuremos todos pertencer à cultura do espírito. Deixemos um pouco de parte a nossa personalidade, porque ela não pode servir- -nos para grande coisa, enquanto não se submeter à individualidade. Desejo que o amor que traz a verdadeira vida, a sabedoria que traz a luz e a verdade que dá a liberdade estejam sempre convosco e em vós. Paris, 30 de Abril de 1938 Notas 1. Cf. A chave essencial para resolver os problemas da existência, Obras completas, t. 11, cap. III : «Dar e receber (o sol, a lua e a terra)». 2. Cf. A verdade, fruto da sabedoria e do amor, Col. Izvor n.° 234. 3. Cf. Nas fontes inalteráveis da alegria, Col. Izvor n.° 242, cap. XI : «O que significa “partir para o estrangeiro”?». 4. Cf. A árvore do conhecimento do bem e do mal, Col. Izvor n.° 210, cap. VII : «A questão dos indesejáveis». |
|
|
Especiais: ÍNDICE I - Doçura e humildade (Jesus entre os dois ladrões) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 II - «Aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á» . . . . 31 III - Trocas vivas e conscientes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 IV - O administrador infiel (personalidade e individualidade) . . . . . . . . . . . . . . . . 65 V - Acumulai tesouros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 VI - O milagre dos dois peixes e dos cinco pães . . . . . . . . 105 VII - Os pés e o plexo solar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 VIII - A parábola do trigo e do joio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141 IX - A alquimia espiritual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 X - A galvanoplastia espiritual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 181 XI - Os poderes da mãe durante a gestação . . . . . . . . . . . . 199 |
|
| As fotos podem não corresponder às publicações descritas. http://www.publicacoesmaitreya.pt Impresso em 2/9/2020 às 19:46 © 2006 - Todos os direitos reservados |
|