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A VERDADE, FRUTO DA SABEDORIA E DO AMOR

Autor:Aïvanhov, Omraam Mikhaël

10.00

Informação adicional

Peso 250 g
ISBN

978-989-8691-60-6

Ano

2018

Edição

1

Idioma

Formato

11 x 18

Encadernação

Cartonada

N. Pág.

216

Colecção

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«O facto de haver tantas verdades diferentes e contraditórias a circular no mundo reflete a deformação do coração e do intelecto dos humanos. Sempre que alguém vos diz: “Para mim, a verdade é…”, trata-se da verdade dessa pessoa, e essa verdade reflete o seu coração e o seu intelecto, que são incapazes, deformados, ou, pelo contrário, muito elevados. Se a verdade fosse independente da atividade do coração e do intelecto, toda a gente deveria ter descoberto a mesma. Ora, não é o caso, como bem sabeis. Todos descobrem verdades diferentes, exceto os seres nos quais existem o verdadeiro amor e a verdadeira sabedoria. Esses descobriram a mesma verdade e é por isso que todos falam a mesma linguagem.»

Omraam Mikhaël Aïvanhov

X
«GOSTOS E CORES…» (pág. 95)

Vós convidais amigos a passar uns dias numa quinta magnífica e ofereceis-lhes concertos, passeios no parque, refeições deliciosas… Sabeis que cada pessoa, consoante o seu temperamento, a sua sensibilidade, irá apreciar mais este ou aquele aspeto da estadia ali, mas estais certos de que todos apreciarão o conforto, os alimentos variados e frescos, a música, as cores, o ar puro, a luz, a companhia de pessoas agradáveis. Ora, o que acontece? Em breve começais a ouvir toda a espécie de queixas e recriminações: o meu fígado, o meu estômago, não suportam esta comida; o ar livre provoca-me constipação; a luz irrita-me os olhos; a companhia dos outros fatiga-me; a música faz-me dores de cabeça… E ficais muito embaraçados. Queríeis dar prazer a todos e não o conseguistes. Não sabeis o que fazer nem o que pensar. Que dizer de todas aquelas pessoas? Que cada uma delas, à sua maneira, está doente. E, como elas estão doentes, não podemos fiar-nos nos juízos que fazem.

É uma situação anedótica, a que vos dou como exemplo, e sem dúvida exagerada, mas não muito. Em todo o caso, podemos dizer que, na vida interior, a maioria dos humanos reage como aqueles doentes: a sabedoria aborrece-os, a paciência enerva-os, a bondade parece-lhes tola, a justiça exige-lhes demasiados esforços, a pureza é insípida. Quanto ao amor, não lhes diz nada, a não ser que sejam os outros a gostar deles e a fazer por eles todos os sacrifícios.

Claro que eles recusam reconhecer isso, mas, na realidade, a opinião dos humanos é quase sempre determinada pelas suas fraquezas físicas ou psíquicas, pelas suas necessidades inferiores, pelas suas paixões. Infelizmente, também é isso que acontece com os escritores, os pensadores e os artistas. São as suas deformações, os seus vícios, que determinam a sua maneira de ver as coisas. Eles apresentam o seu sistema filosófico, ou a sua conceção de arte, como o resultado de longas reflexões, e estão a ser sinceros; mas a realidade é que todas essas teorias são apenas a expressão dos seus tumores e das suas tendências mais ou menos doentias ou perniciosas. Chega a ser chocante verificar que os que estão mais convencidos de que têm opiniões objetivas e desinteressadas são precisamente aqueles cujo modo de ver está mais toldado pelas suas tendências instintivas.
não a deixar comer todos os bombons, doces e bolos que ela deseja, está convicta de que o seu juízo corresponde à verdade. Com o decorrer dos anos, e até na velhice, embora variem de natureza, os desejos e as necessidades continuam a refletir as tendências instintivas do homem. Pode mesmo dizer-se que a maioria das ideologias e dos sistemas filosóficos têm origem nas necessidades dos humanos e, muitas vezes, até nas suas necessidades mais inferiores. vede, por exemplo, as teorias sobre a sexualidade: como a maioria dos homens e das mulheres são incapazes de se dominar, os supostos especialistas têm apresentado teorias e regras que, na realidade, não têm qualquer valor objetivo; elas só dizem respeito a pessoas fracas e ignorantes, que não sabem, nem querem saber, que a força sexual, em vez de ser desperdiçada em prazeres, pode contribuir para a sua evolução espiritual. E assim por diante, em tudo o mais. Por isso é tão difícil instruir os humanos e fazê-los aceitar as verdades iniciáticas.

Vós direis: «Mas, então, como acontece que, com certas pessoas, as verdades iniciáticas produzem um efeito imediato?» Infelizmente, isso não é muito frequente, mas é verdade que certas pessoas, ao ouvirem pela primeira vez verdades do mundo da alma e do espírito, têm a sensação de sempre as terem conhecido, quando momentos antes não tinham a menor ideia a seu respeito. É um fenómeno psíquico muito interessante, sobre o qual vale a pena refletir.

Antes de começar a sua longa peregrinação, longe da sua pátria celeste, o ser humano vivia no seio do Eterno. Ele conservou registos desse paraíso, como que vislumbres extremamente longínquos. Na realidade, essa luz não se afastou dele; está nele, no plano causal. Mas, ao descer cada vez mais na matéria, através dos planos mental, astral, etérico e físico, ele foi sempre vivenciando novas experiências e perdeu a lembrança dessa luz. Todavia, ao longo das sucessivas encarnações, os seres humanos não fizeram todos as mesmas experiências; e, enquanto outros iam extraviar-se em caminhos tortuosos e obscuros, alguns conservaram no fundo de si próprios uma consciência mais clara da sua origem divina.1 É por isso que, perante algumas revelações da Ciência Iniciática, dizem: «Ah!, mas eu já sei isso, é a verdade, não pode ser de outra maneira», ao passo que os outros, que se deixaram arrastar para a desordem e para o caos, estão fechados a todas as revelações. Para as aceitarem de novo, têm de tentar retomar o caminho para o Alto, purificando-se, trabalhando para aumentar a qualidade dos seus pensamentos e dos seus sentimentos.

Todos nós fomos construídos nas oficinas do Senhor para compreender e viver as mesmas realidades divinas. Evidentemente, o que se observa por toda a parte são as disparidades, as contradições entre os seres, o que provoca toda a espécie de mal-entendidos e de confrontos. Continua a haver, é certo, algumas necessidades fundamentais em comum (comer, beber, dormir, gerar filhos, etc.), em que todos estão de acordo, mas em tudo o mais é a Torre de Babel. A maioria está pronta a justificar esta situação, dizendo: «Gostos e cores não se discutem!» E, para parecerem grandes letrados, dizem-no em latim: «De gustibus et coloribus non disputandum!», o que significa que cada um está possuído por uma loucura particular e tem o direito de seguir todas as aberrações que a sua loucura lhe inspira.

Na realidade, os humanos estão divididos entre duas tendências contraditórias: imitar os outros e querer ser diferente deles. Frequentemente, isso tem como resultado imitarem-nos naquilo que não deveriam e oporem-se a eles quando, pelo contrário, deveriam procurar uma harmonia. Pois bem, é precisamente por esta contradição que os humanos mais se assemelham aos outros. Se quereis realmente ser diferentes dos outros, deveis imitar uma pequena minoria de sábios que só trabalham para introduzir a paz e a harmonia em si e à sua volta. É isto que o discípulo faz. Assim, ele torna-se muito diferente da maioria e, ao mesmo tempo, consegue compreender os seus sofrimentos, as suas doenças, as suas angústias. Ao invés, as pessoas que se assemelham não se compreendem: sofrem dos mesmos males, mas só andam ocupadas com os seus problemas pessoais e são incapazes de se pôr no lugar dos outros. Porquê? Porque imitaram precisamente aqueles que não deviam: as pessoas caprichosas e egoístas.

Todos dizem: «Na minha opinião, é assim… A meu ver, isto deveria ser desta maneira…». Muito bem, mas precisavam de pensar também um pouco na opinião dos outros. Todos têm razão, segundo o seu próprio ponto de vista, mas a razão de cada um gera a desordem geral. «Assim vai o mundo!» – é costume dizer-se; e ele vai de desordem em desordem.

O mais extraordinário é que, ao mesmo tempo, as pessoas lamentam-se e queixam-se de que não se consegue instaurar a paz. Até ficam admiradas, perguntam: «Afinal, o que é que se passa, que ninguém consegue entender-se?» e, evidentemente, acusam os outros.2 Não compreendem que tudo aquilo resulta de nunca aceitarem interrogar-se sobre a origem das suas opiniões, para verem se elas se justificam verdadeiramente. No entanto, não lhes faltam ocasiões na vida corrente para verificarem quantos minúsculos pormenores falseiam as suas perceções e os seus juízos. Uma constipação retira-lhes o olfato e o paladar; uma dor de dentes torna-as incapazes de refletir, uma bebida alcoólica tolda-lhes a visão, ao ponto de arriscarem a sua vida e a de outras pessoas, se se puserem a conduzir um automóvel.

Na vida diária, há milhares de circunstâncias como esta, não só físicas, mas também, e sobretudo, psíquicas, que nos impedem de fazer uma apreciação correta das coisas e das situações. As pessoas julgam-se objetivas e imparciais, quando, na realidade, dependem das condições: da hereditariedade, da educação, da posição social, dos seres com quem convivem, do estado físico ou psíquico. Se não dormistes bem, se não comestes, tudo vos irrita. Mas recebeis uma promoção no vosso trabalho e… a vida é bela! Discutis com a vossa mulher (ou com o vosso marido) e o mundo inteiro parece-vos detestável. Tendes provas de que um homem é mau e imoral e a vossa opinião sobre ele é péssima, mas ele oferece-vos um magnífico presente. A vossa opinião a seu respeito não mudará?… É normal ser-se pressionado a fazer juízos em função das circunstâncias, mas deve-se ter consciência dessa “pressão” e não ceder a ela sem refletir. Afinal, o que é uma verdade que depende de condições e de pontos de vista tão pessoais?

É certo que as pessoas têm de ter uma verdade pessoal, mas sem nunca perderem de vista que a verdade não depende das condições nem das pessoas. Há tendência para só se ter em conta as palavras das pessoas em função dos seus títulos ou da sua posição social. Se um pobre vos diz uma verdade, não o escutais, mas dais a maior atenção ao professor diplomado que vos diz a mesma verdade ou algo de pouca importância. No entanto, a verdade tem o seu valor próprio; é esse valor que se deve apreciar, e não dar importância sobretudo à forma, ou aos títulos e à posição social de quem fala.

Uma verdade mantém o seu valor seja em que boca for, tal como uma moeda de ouro vale o mesmo em qualquer bolso. Evidentemente, se receberdes uma moeda de ouro das mãos de um rei, ela representará algo mais para vós, porque a vossa vaidade é estimulada. Na realidade, ela não contém nem mais um miligrama de ouro, mas vós podeis dizer: «Foi o rei que ma deu!» E pode suceder que consigais vendê-la mais cara, assim como se vendem mais caros os objetos e os móveis que pertenceram a personagens históricas ou ilustres: Napoleão, Balzac ou Madame de Staël… Tudo isso é snobismo, nada mais. Uma verdade científica ou filosófica tem valor em si, ainda que não parta de um Iniciado. Se fordes evoluídos ao ponto de não vos deterdes na forma, dareis tanta atenção à verdade que vem de um camponês como à que vos é dita por um rei.

Então, de tempos a tempos, parai um pouco e procurai entender o que vos faz aceitar ou rejeitar uma ideia, uma opinião. Procurai ver quais as tendências que vos impedem de vos pronunciardes imparcialmente e não vos mostreis sempre tão seguros de possuir a verdade. Enquanto os humanos não se decidirem a raciocinar assim, a ser um pouco mais modestos, continuarão a confrontar-se por tudo e por nada. É preciso que eles tomem consciência de todas as tendências inferiores que sustentam as suas opiniões erradas, pois estas impedem-nos de encontrar a unidade original na qual todas os seres podem, finalmente, compreender-se e entender-se.

Acima de tudo, deixai de refugiar-vos na máxima segundo a qual “gostos e cores não se discutem”.3 Isto não quer dizer, evidentemente, que, com o argumento de que conheceis as verdades da Ciência Iniciática, deveis ser intolerantes com os outros e tentar impor-lhes certas ideias e regras. Deixai os outros tranquilos. É em vós que deveis desenvolver a consciência de que existe uma norma para as opiniões e para os gostos. O que é bom e belo deve ser bom e belo para todos. É só na quantidade que cada um é livre de ter os seus gostos, não na qualidade: deve-se escolher sempre o que é puro, luminoso, divino.

Existe uma multidão de Anjos e Arcanjos no Universo, ninguém vos perguntará porque escolhestes este Anjo e não aquele, e podeis permanecer com ele enquanto quiserdes. Mas, se tiverdes escolhido um demónio, para variar um pouco, porque vos parece mais original ou mais apimentado, aí o Céu reprovar-vos-á.

ÍNDICE

I A procura da verdade ………………………………………………………………… 7
II A verdade, filha da sabedoria e do amor ………………………………… 19
III A sabedoria e o amor: luz e calor ……………………………………..…………. 27
IV O amor do discípulo, a sabedoria do Mestre ……………………. 37
V O núcleo de verdade …………………………………………………………………… 45
VI «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» ……………………….. 53
VII O raio azul da verdade ……………………………………………………………… 65
VIII A verdade verdadeiramente verídica ………………………………………… 75
IX Permanecer fiel à verdade …………………………………………………………. 85
X «Gostos e cores…» …………………………………………………………………….. 95
XI Mundo objetivo e mundo subjetivo ………………………………………………… 107
XII A primazia do mundo subjetivo …………………………………………………….. 119
XIII Progresso científico e progresso moral ………………………….. 129
XIV verdade científica e verdade da vida ………………………………. 141
XV ver tudo pela primeira vez ……………………………………………………………. 157
XVI Sonho e realidade …………………………………………………………………….. 165
XVII A verdade acima do bem e do mal ……………………………………….. 173
XVIII «A verdade tornar-vos-á livres» ……………………………………………………..185