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TORNAR-SE UM LIVRO VIVO

32.00

Informação adicional

Peso625 g
ISBN

978-989-8994-70-7

Ano

2025

Edição

1

Idioma

Formato

145 x 210

Encadernação

Cartonada

N. Pág.

490

Colecção

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Os artistas criam, numa matéria exterior, obras que também lhes são exteriores; é sobre essa matéria exterior que concentram os seus esforços, e realizam maravilhas. Mas, para mim, o verdadeiro artista é aquele que é capaz de se tomar a si próprio, em primeiro lugar, como matéria da sua criação. Todos os métodos da vida espiritual estão à sua disposição para o auxiliar e inspirar nessa tarefa.

No mundo psíquico, podemos ser músicos, poetas, arquitetos, escultores, etc. Todas as artes estão incluídas no trabalho do discípulo da Ciência Iniciática. Que descoberta eu fiz, no dia em que compreendi que podia trabalhar sobre uma matéria que não me é estranha, a minha própria matéria! Por isso, mais não faço do que escrever o meu próprio livro, ou seja, escrever-me a mim próprio; nunca escrevi nada, a não ser o livro que sou. Retorquireis: «Então, e os seus livros que nós lemos?». Não os escrevi, confiei esse trabalho a certas pessoas. Eu aplico-me unicamente a escrever o escrever o meu próprio livro, e falo que sabendo que falar também é escrever. Sim, falo esforçando-me por imprimir nas vossas almas escritos celestes.

… E cada um de vós também é um livro, um livro que ele próprio está a escrever: os seus pensamentos e o s seus sentimentos traçam os caracteres de uma escrita que se grava na matéria dos seus corpos subtis. Então, de agora em diante, devereis tornar-vos um livro vivo. Aplicando-vos neste trabalho, tereis uma influência benéfica sobre todos os que se aproximam de vós. O amor fraterno também é isso.

Omraam Mikhaël Aïvanhov

Os misteriosos caminhos do destino

Eu tinha quinze anos… Como muitos adolescentes, era impelido por uma multiplicidade de aspirações a algo grandioso, heroico. O que não se imagina nessa idade! Salva-se a pátria, vai-se em auxílio dos povos oprimidos, faz-se uma descoberta que permitirá curar uma doença até aí incurável, é-se o maior dos poetas ou o maior dos músicos, desperta-se a Bela adormecida… Eu não sabia muito bem o que queria fazer, apenas desejava que fosse grandioso, que fosse nobre, que fosse belo, sem alguma vez dar um nome a esse ideal, nem ao que me permitiria realizá-lo. O que via de bem real, pelo contrário, eram todos os obstáculos que se erguiam diante de mim. Desde a morte do meu pai, alguns anos antes, vivia com a minha família em condições miseráveis. Quantas qualidades me seriam necessárias para eu superar tais condições! Mas não reconhecia em mim nenhuma, ou apenas muito poucas! Além disso, não gostava da escola, aborrecia-me lá, e tinha um comportamento que inquietava e afligia a minha mãe. A distância entre o que eu era e o ideal que tinha no coração parecia-me intransponível, e sentia-me dilacerado.

Nessa época, acabara de descobrir uns livros de espiritualidade hindu sobre a reencarnação e o carma,1 e questionava-me: «Que terei feito nas minhas existências anteriores, para merecer uma tal punição e agora ter de enfrentar tantas dificuldades, suportar tantas privações? Que crimes terei cometido?». Embora me aborrecesse na escola, tinha o desejo de me instruir, para poder realizar grandes coisas, mas sentia-me privado das capacidades que tanto queria possuir, e parecia-me que todos os caminhos se fechavam diante de mim. Não via qualquer saída e estava convencido de que a responsabilidade era toda minha. Precisava de ser esclarecido, orientado, mas não conhecia nenhum adulto em quem confiar, nem mesmo a minha mãe. Ela era uma mulher excecional, de uma grande sabedoria, mas essa sabedoria vinha-lhe do seu amor; tinha muito pouca instrução, e não podia dar resposta às minhas inquietações, nem às minhas interrogações. Na realidade, eu necessitava de um guia espiritual, e só dois anos mais tarde viria a encontrar o Mestre Peter Deunov.*

Mas, ao ler os livros de espiritualidade hindu, também tinha aprendido que, quando não se tem o privilégio de encontrar um Mestre no plano físico, se se souber estabelecer ligação com aos grandes seres que existem em certos lugares da Terra, pode-se ser ajudado. Muitos desses grandes seres, diziam aqueles livros, vivem nos Himalaias, e pela sua presença, pelos seus pensamentos, esforçam-se por conduzir os humanos na via da luz. Para mim, foi uma grande revelação, e a partir desse momento comecei a concentrar-me neles, a ligar-me a eles.

Foi assim que, desde a minha adolescência, aceitei a ideia de que existiam na Terra seres excecionalmente evoluídos, e que, mesmo sem poder estar com eles fisicamente, podia contactá-los pelo pensamento. Imaginava que esses seres, tão sábios e luminosos, consentiam em dar-me da sua sabe- doria, da sua luz. E talvez tenha sido isso que aconteceu: quando viram que eu sofria tanto por causa das minhas imperfeições, que desejava tanto melhorar-me, devem ter tido pena de mim, e aceitaram ajudar-me. Todos os dias eu imaginava que estava com eles, no meio deles, mas também que participava no seu trabalho. Desconheço de onde me vinha esse impulso. O que é que, em mim, me aconselhava? Quando conseguia ligar-me realmente àqueles seres, já não me sentia só. Tinha a certeza de pertencer também a outra família, uma família espiritual, e, apesar de não a conhecer, vivia com ela.
Trinta anos mais tarde, quando já estava em França há um certo tempo, uns amigos falaram-me de uma grande clarividente que vivia em Zurique. Como estou consciente de que existe um mundo que não vemos, mas que é real e com o qual podemos relacionar-nos, sempre procurei estudar os fenómenos de clarividência e de mediunidade nas pessoas que possuem naturalmente este dom. Assim, estive com alguns, mas esta clarividente de Zurique impressionou-me particularmente.
Em 1945, fui convidado a deslocar-me à Suíça, e decidi aproveitar para ir até Zurique, consultá-la. Como ela só falava alemão, eu precisava de um intérprete. Coloquei a questão à proprietária do hotel onde estava hospedado, e esta disse-me que a sua filha, que sabia bem francês, teria todo o gosto em me acompanhar, e então dirigimo-nos a sua casa. Era já idosa e, logo que a vi, fiquei impressionado com a cor e a delicadeza da sua pele.2 A pele do seu rosto dizia-me que aquela mulher era uma santa, e, de imediato, isso deu-me confiança. Ela começou por me agarrar a mão, embora depois me tenha confidenciado que isso não passava de um hábito: não era na mão que via, mas diretamente nos planos subtis. Depois, dirigiu-se à jovem que me acom- panhava: «Diga ao senhor que ele pertence a uma família real.» Exclamei: «Mas isso não é possível! Eu sei quem são o meu pai e a minha mãe, não há nenhuma realeza na minha família.» Ela sorriu e repetiu: «Diga ao senhor que ele pertence a uma família real. Mais tarde, compreender-me-á.»3 Com efeito, mais tarde compreendi que a família real a que eu pertencia não se encontrava no plano físico, mas no plano espiritual.
Ela continuou: «Vem de um país balcânico, o seu pai morreu quando o senhor tinha oito anos e, após a sua morte, viveu numa grande miséria. Tem um irmão mais novo e, para poder criar os dois, a vossa mãe voltou a casar, com um homem que já tinha um filho, e juntos tiveram ainda mais três. Apesar das dificuldades materiais, estudou muito. Há oito anos que está em França. Pertence a um ensinamento espiritual fundado por um Mestre que eu vejo aqui, atrás de si. Tem cabelo branco, barba branca, e deixou agora a terra…». Então, era mesmo verdade, o Mestre deixara a terra! A guerra acabara há muito pouco tempo e eu não podia receber qualquer notícia da Bulgária, mas tinha tido certos pressentimentos e sonhos que me alertaram nesse sentido. Agora, esta clarividente dava-me a confirmação: o Mestre partira.

Ela prosseguiu: «Quando ele viu que aquele que enviara para França continuava a sua obra, e que podia contar com ele, partiu. O senhor é o seu herdeiro, ele fez de si o seu herdeiro… Agora, escute bem! Nos próximos anos, passará por grandes provas, ameaçam-no perigos mortais, terá acidentes, mas escapará a tudo. Depois, irá à Índia, onde terá encontros muito importantes e viverá aconteci- mentos excecionais. O segredo da rainha de Sabá ser-lhe-á revelado.» Fiquei surpreendido! Como podia aquela mulher, tão simples e pouco instruída, falar do segredo da rainha de Sabá? Ela disse-me ainda muitas outras coisas, de que talvez vos fale um dia. Tudo o que ela viu do meu passado era verdadeiro, e o que me predisse já se realizou ou está em vias de se realizar.

Mas voltemos à primeira frase que ela pronunciou: que eu pertencia a uma família real. Se eu tivesse tido a ambição de comandar, de governar, de me impor aos outros, as condições em que nasci e cresci não teriam sido, evidentemente, as mais favoráveis. Mas como, apesar de não ter tido imedia- tamente consciência disso, a minha verdadeira ambição era apenas a de me tornar rei do meu próprio reino, ou seja, senhor de mim mesmo, essas condições foram as ideais.

Ninguém chega à terra com o conhecimento claro daquilo que é, do que vem fazer, e porquê. Durante muito tempo, para mim também nada foi claro. A encarnação é uma queda na matéria, e a matéria tem o poder de aprisionar a alma ao ponto de lhe tirar a memória. Sabe-se que os gregos antigos representavam o além como uma terra atravessada por diferentes rios, entre os quais o Letes – palavra que significa “esquecimento”. Acreditavam que as almas bebiam da água do Letes depois da morte, para esquecerem os acontecimentos da sua vida terrena, e que era também dessas águas que bebiam no momento de reencarnarem. Encontra-se um eco desta crença num dos livros de Platão, A República, no qual ele explica que o destino de uma alma que vem encarnar é determinado por aquilo que ela viveu nas existências anteriores; antes de voltar a descer, tem conhecimento do que a espera, ou porque lhe é imposto, ou porque teve a possibilidade de escolher; mas, no instante em que desce, esse conhecimento é-lhe retirado, pois tem de beber, uma vez mais, a água do Letes, e esquece tudo.

Evidentemente, é apenas uma maneira imaginativa de apresentar as coisas, mas exprime a realidade: a alma que encarna, começa por ignorar completamente qual será o seu destino; mesmo para as almas mais evoluídas, isso fica escondido. Mas, gradualmente, elas lembram-se, e é o que as diferencia das outras, que estão condenadas a continuar a ignorar como vieram à terra e porquê, e o que têm de fazer aqui. Sim, contrariamente ao que afirmam alguns, ninguém nasce com uma consciência clara da sua predestinação. É certo que um ser pode sentir-se atraído nesta ou naquela direção desde muito jovem, mas é sempre uma sensação bastante vaga. São precisos anos e anos de pesquisas, de estudos e até de sofrimentos, para se conhecer a sua verdadeira vocação.4

Foi, pois, após muitos anos e muitas provas, que compreendi como se revela o sentido do destino, e gostaria que aquilo que compreendi vos sirva também a vós, para que possais resolver melhor os problemas que se vos apresentam todos os dias. Passamos por tantos impedimentos, tantas dificuldades, cujo propósito é obrigarem-nos a tomar o único caminho em que poderemos cumprir a nossa predestinação de filhos e filhas de Deus! Preside a todos os destinos uma grande sabedoria, e é preciso aceitarmos essa verdade para não agravarmos os nossos sofrimentos. A Inteligência Cósmica nunca tem a intenção de nos esmagar, mas, com o que nos dá, e também com aquilo de que nos priva, coloca-nos em situações em que somos obrigados a exprimir, a produzir, o que temos de melhor.

Como não via saída para o exterior, tive de procurar em mim e trabalhar sem descanso por intermédio do pensa- mento, da imaginação e da vontade. Sei agora que tudo o que consegui obter depois, aquilo em que me tornei, o devo a essas limitações, a essas privações que me foram impostas. Para cada ser, o destino tem uma linguagem especial, que ele deve esforçar-se por interpretar. Os impedimentos, os obstáculos com que tive de me debater, obrigaram-me a procurar no mundo da alma e do espírito aquilo de que necessitava. E agora desejo levar-vos a também beneficiardes de tudo o que descobri.

Depois de muitos anos, compreendi que as condições exteriores não são determinantes. Ou, mais exatamente, só são determinantes no sentido em que nos obrigam a trabalhar sobre nós mesmos. Quando não se pode avançar e não se quer recuar, só resta descer ao seu interior, como o pescador de pérolas que mergulha nas profundezas do oceano; ou então lançar-se para muito longe, para muito alto, até chegar às estrelas. Agora, posso dizê-lo: graças a todas as dificuldades que encontrei, pesquei muitas pérolas nas águas profundas e projetei-me até às estrelas. Não devemos resignar-nos à pobreza nem às privações, não devemos deixar-nos paralisar pelas dificuldades, mas apenas senti-las como aguilhões para partirmos em busca das verdadeiras riquezas.

Os caminhos do destino são sempre misteriosos. Contrariamente às aparências, elas colocaram-me nas melhores condições. Mas o que se sabe, aos quinze anos, dos caminhos do destino? E, sobretudo, como poderia eu ter sabido que, antes de descer para encarnar, tinha aceitado essas condições? Sim, porque agora sei que as aceitara.

* Ver Junto do Mestre Peter Deunov. Elementos autobiográficos 2, cap. I: «O deslumbramento de um encontro», a editar brevemente. (N. E.)

Notas

  1. Cf. O homem à conquista do seu destino, Coleção Izvor, n.º 202, cap. VIII: «A reencarnação».
  2. Cf. «Em espírito e em verdade», Coleção Izvor, n.º 235, cap. IX: «A pele, órgão do conhecimento».
  3. Cf. La pédagogie initiatique, Œuvres complètes, t. 29, cap. V:
    «Soyez parfaits comme votre Père céleste est parfait», parte IV.
  4. Cf. Nas fontes inalteráveis da alegria, Coleção Izvor, n.º 242, cap. VI: «Como peixe na água».

ÍNDICE

Preâmbulo….7

I – Os misteriosos caminhos do destino11

II – A infância nas montanhas da Macedónia21

III – Em Varna, à beira do Mar Negro51

IV – Aprendizagens79

V – A experiência do fogo103

VI – Até ao coração da rosa125

VII – Na sinfonia universal143

VIII – Encontro com o Mestre Peter Deunov.

As revelações do Salmo 116…151

IX – Frantsia, a França161

X – Não há prisão que possa reter o espírito189

XI – Um ano na Índia: fevereiro de 1959 – fevereiro de 1960215

XII – Sou um filho do Sol259

XIII – Entre a palavra e o silêncio295

XIV – Só escrevo o meu próprio livro321

XV – Toda a Criação fala comigo, e eu falo com ela343

XVI – Um ideal de vida fraterna377

XVII – Só quero a vossa liberdade407

XVIII – Outros vos ajudam através de mim437

XIX – Só o que é irrealizável é real451

Anexos I, II, III469

Referências bíblicas484