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BRUMAS DO TEMPO – Contos Espiritualistas Tradicionais

Autor:Caldas, José

17.00

Informação adicional

Peso 380 g
ISBN

978-989-8691-52-1

Ano

2017

Edição

1

Idioma

Formato

145 x 210

Encadernação

Cartonada

N. Pág.

300

Colecção

REF: 761 Categorias: , ID do produto: 23519
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SINOPSE

Todos os grandes Mestres das antigas Tradições espirituais, cuja voz escutamos nestes belos contos e parábolas que nos chegam do Oriente antigo, mostram, cada um à sua maneira, os grandes males que afectam a vida humana – o egoísmo, a ignorância do verdadeiro sentido da existência, a agressividade, a vaidade, o apego ao prazer e poder, às emoções e às paixões humanas … E todos nos apontam o caminho correcto a seguir – a busca da paz e equilíbrio interiores assentes na prática do altruísmo, compaixão, desapego e o serviço desinteressado ao próximo.
Foram eles que identificaram a Regra de Ouro da vida humana, aquela que deveria reger as relações entre todos os homens e sociedades – Não Faças Aos Outros o Que Não Queres Que Te Façam A Ti – regra esta tão válida há dois mil anos como na nossa sociedade actual.

EXPLICAR OU NÃO O SENTIDO DAS PARÁBOLAS
No final de cada uma das suas prelecções, um Mestre Sufi, brindava os seus alunos com uma parábola, mas escusava-se sempre a explicar o seu significado.
Certo dia, um deles disse:
– “Mestre, contas-nos inúmeras e belas histórias, mas nunca nos elucidas sobre o seu significado. A maior parte das vezes, se reconhecemos a sua profundidade, somos incapazes de reconhecer os seus objectivos, a essência dos seus ensinamentos”.
– “As minhas mais sinceras desculpas – disse o Mestre – é de todo pertinente a tua crítica. Permite-me que como compensação e reconhecimento da minha falta te ofereça um pêssego”.
– “Bem hajas, Mestre” – respondeu o discípulo agradecido.
– “Melhor, deixa que te descasque o pêssego. Permites”?
– “Sim Mestre”.
– “Sendo assim, gostaria de to partir em pequenos pedaços para que mais facilmente o possas saborear”.
– “Mestre, não quero abusar da tua gentileza … ”
– “Não é um abuso, faço-o de bom grado. Já agora, permites que to
mastigue?
– “Por amor de Alá, isso não!” – respondeu o jovem discípulo um tanto estupefacto com tal proposta.
– “Pois, explicar-te o sentido das histórias seria o mesmo que te oferecer fruta mastigada.

O CONTO DO PRÍNCIPE DA PALAVRA SÁBIA

1. O renascimento do Bodhisattva

Havia uma vez um rei de grande integridade. A sua esposa, rainha de um carácter muito doce, deu à luz um lindo bebé e o Rei sentiu-se imensamente feliz. Pensando na conveniência de dar a seu filho um nome que o favorecesse por toda a vida, chamou-lhe “Príncipe da Palavra Sábia.”

Na realidade, o Príncipe não era um bebé comum nem esta era a sua primeira vida. Há milhões de anos, havia sido um fiel discípulo de um Buda, um grande ser Iluminado já esquecido por muitos.
Desejava fervorosamente converter-se num Buda igual ao seu querido mestre. Renasceu muitas vezes, às vezes entre animais, as vezes entre deuses de longas vidas e outras vezes entre seres humanos. Tratou sempre de aprender com os seus erros para desenvolver todas as perfeições. Deste modo, purificava a sua mente e removia os três venenos formados pelos apegos, o ódio e a ilusão de si próprio, que são as raízes de todos os estados negativos. Ao praticar as perfeições, algum dia acabaria por substituir esses venenos pelas três purezas, que são: estar livres de apegos, actuar sempre com benevolência amorosa e possuir grande sabedoria.
Esse grande Ser, acabado de nascer como príncipe, teria sido seguidor de um Buda do passado. A sua meta era alcançar a mesma iluminação de um Buda para poder experimentar a verdade completa. Por isso o chamaram Bodhisattva, o que significa “Ser que aspira à Suprema Iluminação”. Nada realmente se sabe quantos milhões de vidas terá tido esse grande herói. Porém, tem-se contado muitas histórias, incluindo a seguinte que nos fala de um príncipe chamado de Palavra Sábia. Depois de muitas vidas mais, finalmente esse Grande Ser atingiu a sua meta e, no nosso tempo, recordamo-lo com muito amor e respeito como o Buda.

2. Os ensinamentos dos deuses

Após um ano, a rainha teve outro filho e o chamaram Príncipe Lua.
Quando ambos os filhos começaram a caminhar, a Rainha adoeceu seriamente e morreu. Buscando quem o ajudasse a lidar com os bebés, o Rei encontrou uma princesa e tornou-a a sua nova Rainha. Depois de uns anos, esta Rainha deu à luz um belo bebé a quem chamaram “Príncipe Sol”.

Feliz, o Rei queria recompensar a sua rainha por criar os três bebés e concedeu-lhe um desejo como forma de agradecimento. A Rainha pensou e disse: “ Obrigado meu senhor, mas esperarei algum tempo para expressar o meu desejo num momento futuro”.

O tempo transcorreu feliz e os três príncipes transformaram-se em jovens aplicados. A Rainha viu que o príncipe da Palavra Sábia era muito inteligente e bom carácter e pensou: “Se os príncipes mais velhos ficarem no palácio, o meu filho, o Príncipe Sol, jamais chegará a ser Rei. Portanto, devo fazer algo para assegurar que ele seja o futuro rei.”

Um dia, quando o Rei estava de bom humor, a Rainha aproximou-se com respeito e lembrou-lhe do desejo que lhe fora prometido. Muito feliz, o Rei disse: “Como posso recompensar-te?”
Então a Rainha disse: “Meu querido esposo, desejo que, quando findar a tua vida, o meu filho, o Príncipe Sol seja o sucessor do reino”
Muito incomodado disse: “Os meus dois primeiros filhos são como estrelas brilhantes. Como posso permitir que o meu reino seja herdado pelo meu terceiro filho?
As pessoas não o aceitariam. Isto simplesmente não pode ser”.
A Rainha manteve-se em silêncio. O Rei que estava tão feliz, caíu agora numa grande tristeza. Estava assustado e cheio de temores, temia que a rainha prejudicasse os seus primeiros dois filhos usando alguma intriga. Por isso, decidiu encontrar uma maneira de assegurar a vida dos seus filhos.
Em segredo, o Rei chamou o Príncipe da Palavra Sábia e seu irmão, o Príncipe Lua e comunicou-lhes o infeliz desejo da Rainha.
Com grande tristeza, os filhos entenderam que a única maneira de garantir as suas vidas era partirem do reino. Só deviam regressar depois da sua morte para ocupar as posições que lhes corresponderiam no reino.
Os dois príncipes, obedecendo a seu pai, aceitaram a sua ordem e prepararam-se para partir. Quando estavam prontos, despediram-se de seu pai e de seus amigos e retiraram-se.
Quando cruzavam os jardins do palácio, encontraram-se com o Príncipe Sol que tinha sido sempre muito afectuoso e queria muito bem a seus irmãos maiores.
Ao escutar que iam partir por muito tempo, não quis aceitar e decidiu ir com eles. Assim, os três príncipes decidiram viajar juntos. Viajaram durante meses, até que chegaram a um país montanhoso nos Himalaias. Muito cansados, sentaram-se debaixo de uma árvore e os irmãos maiores disseram ao Príncipe Sol, o menor:
–“Por favor, vai até ao lago que está mais abaixo, enche umas folhas de lótus com água e trá-las para que nos refresquemos”.
Não sabiam que esse bonito lago de águas azuis estava possuído por um demónio da água. Tinha sido dada permissão a esse demónio para comer qualquer ser que usasse aquela água, mas devia respeitar as seguintes condições: Não poderia comer quem soubesse responder correctamente à pergunta:
–“Qual é o ensinamento dos deuses?”
Quando o príncipe Sol chegou junto ao lago, sentindo-se sujo, cansado e com sede, simplesmente entrou na água sem nenhuma preocupação. De repente, o demónio da água emergiu das profundezas e agarrou-o. Em seguida, perguntou!
–“Diz-me, qual é o ensinamento dos deuses?
“ Assustado, o Príncipe Sol respondeu:
–“Conheces a resposta – o Sol e a Lua são os ensinamentos dos deuses”.
“Essa não é a resposta certa e portanto és meu agora!” disse contente o demónio da água.
Logo levou o Príncipe Sol para o fundo do lago e fechou-o numa caverna.
Como o príncipe Sol não voltasse, o Príncipe da Palavra Sábia pediu ao Príncipe Lua, seu segundo irmão, que fosse ao lago e trouxesse água nas folhas.
Ao chegar ao lago, ele também entrou directamente na água, sem verificar nada. Novamente apareceu o demónio da água, que o agarrou e perguntou:
–“Quais são os ensinamentos dos deuses”
O príncipe Lua respondeu –“Conheço a resposta: As quatro direcções, norte, sul, leste e oeste são os ensinamentos dos deuses”.
–“Não conheces a respostas e portanto és meu agora!”
Imediatamente, o demónio encerrou também o Príncipe Lua na mesma caverna debaixo do lago onde estava o Príncipe Sol.
Como ambos os irmãos não regressavam, o Príncipe da Palavra Sábia suspeitou que algo estranho houvesse acontecido. Então, ele mesmo foi até ao lago azul.
Como era uma pessoa sábia e cuidadosa, não entrou na água, mas verificou primeiro, olhando em redor. Viu que as marcas dos pés de seus irmãos chegavam até às águas, mas sem marcas de saída. Para se proteger, tinha à mão uma espada e um arco com flechas e pôs-se a caminhar ao redor do lago.
Ao ver que o príncipe não entrava directamente na água, o demónio do lago apresentou-se-lhe na forma de um homem pobre e disse-lhe:
–“Estimado amigo, estás cansado e sujo e caminhas ao redor de um lago. Porque não entra na água para te banhar, beber e comer algumas raízes de lótus?”
Pensando nas marcas dos pés de seus irmãos que entraram mas não saíram do lago, o Príncipe da Palavra Sábia respondeu:
–“Deve ser uma espécie de demónio disfarçado de ser humano. Que fizeste com meus irmãos?“

Surpreendido por ter sido descoberto tão rapidamente, o demónio da água recuperou a sua verdadeira aparência feroz e respondeu ao príncipe:
–“Porque me é permitido, capturei os teus irmãos.”
O Príncipe perguntou: –“O que é que te é permitido?”
O demónio respondeu: –“Tenho permissão para os comer.
O meu superior concedeu-me o poder de comer todos que invadem o lago e que não conhecem os ensinamentos dos deuses. Se alguém conhecer esses ensinamentos, então não tenho essa permissão”.
O Príncipe perguntou: –“Porque necessitas saber isso? Que vantagem tem um demónio como tu em conhecer os ensinamentos dos deuses?”
E o demónio da água respondeu:
–“Deve haver alguma vantagem para mim, pois irei ensinar o que os deuses querem que façamos” disse ao Príncipe da Palavra Sábia.
Este disse: –“Pois, tenho um problema. Estou cheio de pó da viagem e não posso falar sobre os ensinamentos sábios nestas condições.”
O demónio da água percebera que este príncipe era alguém especial. Por isso, ele mesmo o lavou e refrescou, deu-lhe água para beber em folhas de lótus e umas raízes suaves de lótus para comer. Inclusivamente, preparou-lhe um lugar confortável que decorou com belas flores silvestres. Depois de guardar a sua espada, arco e flecha, o grande senhor tomou o assento e o demónio colocou-se a seus pés, como se fosse um discípulo escutando o seu mestre.
Então o príncipe da Palavra Sábia disse:
–“Os ensinamentos dos deuses são os seguintes:
“Deves envergonhar-te de teus actos maldosos. Não te deves envolver em actos maliciosos. Pelo contrário, sempre deves dedicar-te a actos de bem, que levem felicidade aos demais e que ajudem a humanidade. Logo brilhará em teu coração a luz da felicidade e da paz.”
O demónio da água sentiu-se compadecido com a resposta e disse:
“Príncipe do grande saber, sinto-me muito satisfeito com a tua resposta. Como fiquei muito feliz, devolverei um dos teus irmãos. Qual escolhes”?
O Príncipe da Palavra Sábia disse:
–“Devolve-me o meu irmão menor, o Príncipe Sol”
O demónio respondeu-lhe:
–“O meu estimado príncipe, tão sábio que conhece os ensinamentos dos deuses, sem dúvidas, não está a praticá-los”.
O Príncipe perguntou:
–“Porque dizes isso? O demónio respondeu:
–“Porque deixas morrer o maior e salvas o menor: Não estás a respeitar os mais velhos!”
Então o príncipe disse:
“Ó Demónio, conheço os ensinamentos dos deuses e certamente que os estou a praticar.
Os três príncipes saíram do palácio devido ao seu irmão menor. A sua mãe solicitou ao nosso pai que ele fosse o herdeiro do reino. Para nos proteger, o nosso pai mandou-nos para longe. O jovem Príncipe Sol acompanha-nos devido à sua lealdade. Por isso, se retornarmos à corte sem ele, dizendo que o demónio da água o comeu, quem iria acreditar? Pensariam que nós o matámos porque ele era a causa da nossa pobreza. Isso trazer-nos-ia uma imensa vergonha e uma grande dor para o reino. Assim, para tentar evitar esse resultado desfavorável, peço-te que soltes o Príncipe Sol”

O demónio da água calou-se, profundamente, impressionado por aquilo que escutou e disse:
–“Bem dito, bem dito, meu estimado senhor. Conheces os ensinamentos dos deuses e verdadeiramente estás a praticá-los. É com muita alegria que te devolverei os dois irmãos.”
De seguida, entrou na água e trouxe ambos os príncipes à superfície, molhados, mas sem nada terem sofrido.
Mais tarde, o Bodhisattva aconselhou o demónio dizendo:
–“Ó Demónio da água, serás o meu novo amigo. Penso que deves ter cometido muitos actos maldosos em vidas anteriores para teres nascido como um demónio feroz que se alimenta devorando gente. Se continuares desta forma, ficarás amarrado a um estado deplorável em vidas futuras. As obras maldosas conduzem à vergonha, a situações dolorosas e a renascimentos desfavoráveis. Sem dúvida, as obras boas são causa de respeito, da paz e d renascimentos favoráveis. Portanto, será muito melhor para ti melhorares a tua forma de viver em vez de prosseguires com os teus actos impuros. Dedica-te de agora em diante a obras para o bem”.
Deste modo, o demónio arrependeu-se das suas más acções e os príncipes viveram felizes sob a sua protecção. Um dia chegou a notícia da morte do seu pai. Então os três príncipes regressaram à sua cidade, juntamente com o seu amigo o demónio da água,
O príncipe da Palavra Sábia foi coroado como Rei, o príncipe Lua como primeiro-ministro e o Príncipe Sol como comandante do exército. Recompensaram o demónio da água com um lugar seguro para viver, alimentando-o e providenciando tudo o que lhe fazia falta para o resto da sua vida. Deste modo, todos puderam acumular pensamentos bons .

A SEMENTE DE MOSTARDA

Krisha Gotami teve um filho e este morreu. Transida de dor, ia com o filho morto de casa em casa, pedindo um remédio, e as pessoas diziam:
–“Está doida: a criança está morta.”
Finalmente, Krisha Gotami encontrou um camponês que respondeu à sua súplica dizendo:
–“Não tenho um remédio para dar à criança, porém sei de um médico capaz de o fazer”.
E Krisha Gotami respondeu:
–“Suplico-te que me digas quem é”.
–“Vai ver o Buda”.
Krisha Gotami foi ver o Iluminado e exclamou, a chorar: –“Senhor meu e mestre. O meu filho estava a brincar entre as flores e tropeçou numa serpente que se enroscou no braço. Ficou logo pálido e silencioso. Não posso aceitar que ele deixe de brincar ou que deixe o meu colo. Senhor meu mestre, dá-me um remédio que cure o meu filho”.
O Iluminado respondeu:
–“Sim irmãzinha, há uma coisa que pode curar o teu filho e a ti, se puderes consegui-lo, porque os que consultam os médicos tomam o que lhes é receitado. Procura uma simples semente de mostarda preta. Porém só deves recebê-la de uma casa onde nunca tenha entrado a morte, onde não tenha ainda morrido nem pai, nem mãe, nem filho nem filha, nem irmão, nem irmã, nem escravo nem parente.

Aflita, Krisha Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas compadeciam-se dela e davam-lha, porém, quando perguntava se já alguém tinha morrido naquela casa, todos lhe respondiam:
–“Ah! Poucos são os vivos e muitos os mortos. Não despertes a nossa dor”.
Agradecida, ela devolvia-lhes a mostarda e dirigia-se a outros que lhe diziam:
–“Aqui está a semente, porém já morreu nosso escravo”.

–“Aqui está a semente, porém o semeador morreu entre a estação chuvosa e a colheita”. E não encontrou nenhuma casa onde não tivesse morrido alguém.
Krisha Gotami voltou chorosa para o Iluminado dizendo: –“Ah! Senhor, não pude encontrar mostarda em casa onde não tivesse havido morte. Então, entre as flores silvestres, na margem do rio, deixei o meu filho que não queria mamar nem sorrir, e volto para ver o teu rosto e beijar os teus pés, suplicando-te que me digas onde encontrar essa semente, sem deparar ao mesmo tempo com a morte, pois, apesar de tudo não posso crer na morte do meu filho, como todos me disseram e temo tenha acontecido”.
O mestre respondeu-lhe:
– “Minha irmã, procurando o que não podes encontrar, encontraste o amargo bálsamo que eu te queria dar. Sobre o teu seio, o ser que amas dormiu hoje o sono da morte. Agora já sabes que todo o mundo chora uma dor semelhante à tua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se concentrado num só. Escuta! Derramaria eu o meu sangue se, ao derramá-lo, pudesse deter as tuas lágrimas e descobrir o segredo de o amor causar tal angústia. Nenhum nascido pode evitar a morte. Assim como os frutos maduros caem da árvore, assim os mortais estão expostos à morte desde que nascem.
A vida corporal do homem acaba por se partir como a vasilha de barro do oleiro.
Jovens e adultos, néscios e sábios, todos estão sujeitos à morte. Porém, o sábio que conhece a Lei não se perturba, porque nem pelo pranto nem pelo desânimo obtém a paz, mas pelo contrário, tudo isso aviva as dores e os sofrimentos do corpo.
A morte não faz caso de lamentações. Morre o homem e o seu destino está determinado pelas suas acções. Embora viva dez ou cem anos, acaba o homem por separar-se dos seus familiares ao sair deste mundo.
Quem deseja a paz da alma, deve arrancar da sua ferida a flecha do desgosto, da queixa, da lamentação. Feliz será aquele que consegue vencer a dor.
Sepulta tu mesma o teu filho”. Extenuada pela dor, Krisha Gotami sentou-se na margem do caminho, pôs-se a meditar no silêncio do entardecer e disse consigo:
–“Quão egoísta sou eu na minha dor! A morte é o destino comum de tudo quando vive. Porém, neste vale desolado há um caminho que conduz à imortalidade – aquele que elimina de si todo egoísmo”. E sufocando o amor egoísta que sofria pelo filho, enterrou-o no bosque. Foi a seguir refugiar-se no Iluminado e encontrou o consolo que alivia o coração dilacerado pela dor.